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Correio da Manhã

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"Não acreditei que tinha uma casa": A "estranheza" de quem voltou a ter um tecto ao fim de 20 anos a viver nas ruas de Lisboa

"São muitos anos de rua, muitos anos em que a gente anda na rua e chegamos a uma certa altura em que já não sabemos o que é dormir numa cama", diz José Fernando.
Lusa 25 de Outubro de 2020 às 07:57
Sem-abrigo a dormir na rua
Sem-abrigo a dormir na rua FOTO: Getty Images
A vida de José Fernando deu "vários trambolhões" até chegar às águas-furtadas de um prédio na Ajuda, a sua primeira casa ao fim de mais de 20 anos a viver pelas ruas de Lisboa.

"São muitos anos de rua, muitos anos em que a gente anda na rua e chegamos a uma certa altura em que - eu falo por mim - já não sabemos o que é dormir numa cama", contou à agência Lusa, na sala do seu T1.

Aliás, na primeira noite que dormiu na nova casa atribuída pela associação Crescer, no âmbito do projeto "Housing First", que tem como principal parceiro a Câmara Municipal de Lisboa, nem chegou a 'estrear' a cama coberta por uma colcha vermelha.

"Chegar a uma casa é estranho e eu senti essa estranheza, no primeiro dia nem dormi na cama, sentei-me aqui no sofá, a olhar para a televisão, estava a ver e não estava a ver, e quando acordei de manhã estava sentado [...] e não acreditei que tinha uma casa", lembrou José Fernando, de 62 anos.

Para trás ficaram "várias situações, vários trambolhões" desde que chegou a Lisboa em 1975 vindo de Angola, com 16 anos, sozinho e sem documentos.

Depois de "voltas e mais voltas", conseguiu um cartão de residente válido por seis meses e foi arranjando trabalhos em cafés, mercados, oficinas.

Mas, os 'altos e baixos' foram-se sucedendo, com a vida de José Fernando a alternar entre períodos em que conseguia pagar um quarto e muitos outros em que a 'morada' era uma qualquer rua de Lisboa. Até se começar a "afundar mais", a consumir drogas e a deixar de acreditar nas pessoas.

Mais tarde, já 'limpo' de drogas, voltou a arranjar trabalho, mas novamente as coisas não correram bem e voltou para a rua.

Já este ano, em plena pandemia, no centro de emergência para sem-abrigo do Casal Vistoso cruzou-se com os técnicos da Crescer e "com o doutor Américo", presidente da associação, e em agosto entrou pela primeira vez na sua casa.

Dois meses e meio depois, já se sente "mais leve" e as prioridades são tratar da documentação e arranjar trabalho.

Até lá "há que viver um dia de cada vez", com muitos desses dias a serem passados a ler, sentado no sofá debaixo da janela da sala, em frente à televisão desligada.

"Mas, se tivesse um trabalho era espetacular", rematou, a sorrir.

De qualquer forma, seguindo a metodologia aplicada pela associação Crescer, o primeiro passo já está dado: José Fernando saiu da rua e tem uma casa.

"Na cultura em que vivemos normalmente as pessoas têm de provar que conseguem viver numa habitação e muitas vezes têm de ir para tratamentos, têm de aderir a medicações, têm de aderir a determinados apoios sociais para ter uma casa. Há pessoas que estão 20, 30 anos na rua e acabam por falecer e nunca aceder a uma habitação", descreveu o presidente da Crescer, Américo Nave.

O "Housing First" inverte essa metodologia e defende que primeiro se deve dar uma casa e, "depois de as pessoas estarem numa situação digna, numa situação mais estável, mais segura, trabalhar todas as outras questões e necessidades que cada pessoa tenha, tanto a nível social, como de saúde", acrescentou.

O projeto nasceu nos Estados Unidos em 1992 e há sete anos a Crescer começou a trabalhar no modelo com um projeto-piloto de sete casas. Atualmente, já tem 85 casas de "Housing First", 55 das quais surgiram já depois do início da pandemia de covid-19, e o objetivo é chegar às 120 até ao final do ano.

"O 'Housing First' responde aos casos mais complexos. Quanto mais complexa a situação, mais eficaz é o 'Housing First' na resposta a estas pessoas", relatou Américo Nave, adiantando que a taxa de 'sucesso' é de cerca de 90% e que a idade média das pessoas que integram o projeto está acima dos 50 anos.

"São pessoas que já têm uma longa história, um longo percurso em situação de sem-abrigo, infelizmente. O tempo médio de rua é de 15 anos, mas há pessoas que tiveram 30 anos", afirmou o responsável.

Quando entram nas casas arrendadas pela Crescer, as pessoas que integram o projeto assinam um contrato com a associação e comprometem-se a cumprir "com pelo menos seis visitas por mês do gestor do caso", um colaborador da instituição que pode, por exemplo, ajudar a arrumar a casa, a cozinhar ou até a tratar da higiene.

Questionado sobre quanto tempo podem as pessoas ficar nas casas, Américo Nave responde com outra pergunta: "Quantos anos podem as pessoas ficar na rua?".

"O objetivo deste projeto é que as pessoas não voltem à situação de sem-abrigo", exclamou, contando que há casos de pessoas no projeto que já trabalham e têm a sua vida organizada, mas não conseguem ainda pagar uma casa devido aos preços praticados no mercado de arrendamento.

Para a Câmara Municipal de Lisboa, este "é um modelo para continuar", é a "matriz de trabalho com as pessoas em situação de sem-abrigo", sem abandonar as outras respostas que "continuam a ser necessárias".

"Ainda há muito por resolver, ainda há muita gente na rua, há muita gente a contactar, mas creio que a resposta que estamos a dar é suficientemente robusta e com garantia de continuidade para lá destes anos da crise, para garantir que há projetos de vida disponíveis para estas pessoas", defendeu o vereador responsável pelo pelouro dos Direitos Sociais, Manuel Grilo.

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