Barra Cofina

Correio da Manhã

Sociedade
6

A sindicalista que não falta

Um olhar fugidio pelo registo do professor de Isabel Alçada merece uma observação imediata: "Um caso exemplar!", diz Luís Fernando Costa, director da Escola EB 2,3 Fernando Pessoa (Olivais), quando confrontado com a ausência de faltas da então estagiária, que, entretanto, foi dirigente sindicalista e agora é ministra da Educação.
24 de Outubro de 2009 às 00:30
Director da Escola Fernando Pessoa destaca qualidades à nova ministra. Actuais alunos do estabelecimento reconhecem-na de ‘Uma Aventura’
Director da Escola Fernando Pessoa destaca qualidades à nova ministra. Actuais alunos do estabelecimento reconhecem-na de ‘Uma Aventura’ FOTO: Diogo Pinto

Esta é apenas mais uma das qualidades que o responsável junta às retidas nos anos de trabalho com Isabel Alçada. O retrato é quase perfeito. " É simpática", "com sensibilidade", "dialogante" e "boa profissional", enumera Luís Fernando Costa a partir da mesma sala em que conheceu uma outra faceta da nova ministra. "Dei com a Isabel a ralhar com um aluno. Fiquei surpreso porque a imagem destoava do normal, mas, quando era preciso, a professora simpática também punha ordem", lembra o responsável.

Mas também na luta pelos profissionais da área Isabel Alçada deixou uma marca. Na qualidade de dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, "esteve sempre ligada a questões pedagógicas e a acções de formação", recorda Luís Costa, que se cruzou pela primeira vez com Isabel Alçada na Escola Fernando Pessoa em 1980, era a ministra membro do Conselho Directivo, embora o seu percurso no estabelecimento tenha começado em 1976, aos 26 anos. Ao todo, foram oito anos a leccionar numa escola onde, se pudessem votar para ministro, as funcionárias mais antigas garantem que "seria nela", mas onde os actuais alunos apenas reconhecem Alçada como a autora de ‘Uma Aventura’.

Foi ainda na escola Fernando Pessoa que Isabel Alçada conheceu Ana Maria Magalhães, com quem criou estes livros de aventura. O novo cargo, garantiu ao CM Ana Maria Magalhães, não vai impedir Isabel Alçada de escrever. "Quando avizinhámos que poderia vir a ser ministra adiantámos o trabalho durante o Verão e entregámos o novo livro na semana passada. Geralmente entregamos em Dezembro. Agora, a partir de Janeiro voltaremos a escrever", contou a escritora.

VENDIDOS SEIS MILHÕES DE LIVROS

A colecção ‘Uma Aventura’, das autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, foi iniciada em 1982 e tornou-se um sucesso da literatura juvenil portuguesa. As aventuras das gémeas Teresa e Luísa e dos amigos Pedro, Chico e João fizeram as delícias dos mais jovens e a colecção já vendeu mais de seis milhões de exemplares. O sucesso de ‘Uma aventura’ chegou entretanto à televisão, com a adaptação das histórias para uma série televisiva e em breve vai chegar ao grande ecrã. Em Dezembro estreia nos cinemas o filme ‘Uma Aventura na Casa Assombrada’.

ÚNICA A PASSAR POR SECUNDÁRIA

Dos 24 ministros que desde 1974 tiveram a pasta da Educação, 18 eram professores universitários, três militares e outros três licenciados, mas ninguém como Isabel Alçada contava com experiência de ensino no Secundário. Pelo Ministério passaram, em tempo de República, históricos como Magalhães Lima, António Sérgio, Ricardo Jorge e Duarte Pacheco. Isabel Alçada fez Filosofia na Faculdade de Letras da Clássica de Lisboa, tal como Sottomayor Cardia, que foi ministro no 1º Governo Constitucional e se doutorou muito depois, em 1992. Em termos femininos é a 4ª e terceira consecutiva na lista aberta por Manuela Ferreira Leite em 1993.

SAIBA MAIS

LEITURA

Quatro livros da colecção ‘Uma Aventura’ são recomendados pelo Plano Nacional de Leitura.

52

Em Março do próximo ano, será lançado o 52.º livro, com a publicação de ‘Uma Aventura no Pulo do Lobo’.

5,50 €

Cada livro da colecção ‘Uma Aventura’ custa 5,50 euros.

DISCURSO DIRECTO

"VAMOS CONTINUAR A ESCREVER": Ana Maria Magalhães Co-autora de ‘Uma Aventura’

Correio da Manhã – Como vê a nomeação de Isabel Alçada para ministra da Educação?

Ana Maria Magalhães – O eng.º José Sócrates não poderia ter escolhido melhor. Ela é uma pessoa que conhece bem a escola, é inteligente, muito calma e corajosa. Aposta sempre no diálogo.

– Com a entrada de Isabel Alçada para o Governo, as aventuras ficarão suspensas?

– Não. Os leitores podem estar descansados, porque não vamos deixar de escrever. A partir de Janeiro vamos começar a trabalhar.

– Os fãs podem esperar ‘Uma Aventura no Governo’?

– No Governo não... coitadas das crianças. Na semana passada, entregámos o livro ‘Uma Aventura no Pulo do Lobo’, que será lançado em Março. Ainda temos de definir o próximo.

MINISTRA ESPERA VERBAS

Artista entre pares, aplaudido por praticamente todos, o nome de Gabriela Canavilhas à frente do Ministério da Cultura é visto como uma lufada de ar fresco num sector que, legislatura após legislatura, tem vindo a ser esquecido. É a própria pianista quem acredita agora que aquele que foi sempre o parente pobre do Governo poderá passar a receber mais verbas.

Lembrando o discurso do primeiro-ministro, que admitiu ter errado na anterior legislatura por não ter investido mais nesta área, a pianista que reestruturou a Orquestra Metropolitana de Lisboa vem agora dizer que tem "expectativas de que esse interesse [Sócrates] se expresse numa dotação orçamental. Para Canavilhas, em declarações à Renascença, tais palavras "indiciam uma preocupação especial ou diferente para com a cultura".

Nomeada directora Regional de Cultura dos Açores, Canavilhas admite alguma pena por abandonar as ilhas. "É evidentemente um convite honroso que eu aceito como mais um desafio importante da minha vida, mas devo dizer que tenho alguma mágoa por deixar os Açores tão cedo", revelou à TSF. A pianista vai, aliás, permanecer nos Açores até domingo, para assistir à primeira apresentação da Orquestra Francisco de Lacerda. Sobre as prioridades de acção, a nova ministra da Cultura é cautelosa, sublinhando ser ainda cedo para falar em projectos.

ARTISTA

A aposta numa artista para a pasta da Cultura é uma opção aplaudida. Gabriela Canavilhas coordenou a reestruturação da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Além de dar aulas de piano, participou no filme ‘Tráfico’, de João Botelho, em 1998.

SANTOS SILVA JÁ FOI AO MINISTÉRIO DA DEFESA

Sem tempo a perder, Augusto Santos Silva reuniu-se ontem com o actual ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, para se inteirar dos desafios que o esperam a partir de segunda-feira quando assumir a nova pasta. Durante cerca de duas horas, segundo apurou o CM, os dois ministros estiveram reunidos no gabinete de Severiano Teixeira, que abandona o Governo. A Lei da Programação Militar será o primeiro grande desafio de Santos Silva na Defesa e ainda ontem o chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Luís Araújo, lamentou a falta de verbas para a modernização dos aviões C130.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)