Barra Cofina

Correio da Manhã

Sociedade
4

Bactéria causa nona vítima mortal

A bactéria ‘Clostridium difficile’, que desde o início do ano infectou 38 doentes do Hospital de Faro, causou a nona vítima mortal. João Batista Fernandes, de 74 anos, residente em Moncarapacho, faleceu sábado, um dia depois de a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde ter ilibado o hospital das mortes ali ocorridas e associadas à bactéria.

23 de Maio de 2009 às 00:30
Ana Cristina e o sobrinho Mickael Carvalho mostram o certificado de óbito de João Fernandes e querem formar associação para processar o Hospital de Faro
Ana Cristina e o sobrinho Mickael Carvalho mostram o certificado de óbito de João Fernandes e querem formar associação para processar o Hospital de Faro FOTO: Nuno Jesus

O certificado de óbito de João Fernandes identifica como 'causa inicial [causa básica] uma infecção por Clostridium difficile'. Revela ainda uma sepsis (infecção generalizada) e uma cistite (inflamação da bexiga) como causas da morte.

'O meu pai sofria de crises de epilepsia. De 19 de Fevereiro a 8 de Março, esteve, por cinco vezes, nas Urgências do Hospital de Faro', explicou ao CM Ana Cristina, filha do falecido. Posteriormente, João Fernandes foi hospitalizado na clínica Santa Maria, em Faro, para uma operação a uma anca, mas só depois de ter alta, já em casa, começou a piorar.

'Ficou acamado, deixou de andar e tinha diarreias constantes com muco, comum a doentes contaminados pela bactéria', explica a filha.

O agravar da doença origina novo internamento, a 7 de Abril. 'Ficou dois dias numa maca, nas Urgências, junto a outros doentes. A família visitava-o sem utilizar qualquer protecção, pois ninguém avisou do perigo de infecção', diz Ana Cristina. Mais tarde, João Fernandes é internado no 8º piso, já em isolamento. 'Esteve três semanas numa maca, criando escaras [feridas], até falecer', afirma Ana Cristina, que quer criar uma Associação de Vítimas de Doenças Nosocomiais para processar o hospital.

A directora clínica, Helena Gomes, esclarece que a vítima entrou no hospital 'num estado muito grave' e garante que a sua morte 'ficou a dever-se à falência múltipla orgânica'. Afirma ainda que 'o doente não foi infectado seguramente no Hospital de Faro', garantindo que 'já tinha essa infecção 40 dias antes da morte'.

MORREU APÓS UM MÊS INTERNADO

Abílio Lima, 75 anos, morreu no serviço de Medicina 1, no 8º piso do Hospital de Faro, ao fim de um mês de internamento. A identificação do falecido reconhece como factor que contribuiu para o falecimento uma 'gastroenterite por clostridium difficile'.

De acordo com a viúva, Adília Lima, o idoso deu entrada no hospital dia 20 de Fevereiro, devido a AVC. Esteve quatro dias numa maca, no Serviço de Observação, entre dois doentes com broncopneumonia. Contraiu a doença e começou a ser tratado com antibióticos, sendo transferido para a Medicina 1, onde foi colocado ao lado de uma cama ocupada por um octogenário já infectado com a bactéria (que também acabou por falecer). Estavam mais cinco doentes na enfermaria. Abílio foi infectado e morreu, a 22 de Março, oito dias depois do seu aniversário.

INFECÇÕES AFECTAM 100 MIL POR ANO

As infecções hospitalares afectam 100 mil pessoas por ano em Portugal mas poderão aumentar ainda mais porque a população portuguesa está a envelhecer e os idosos são alguns dos doentes mais susceptíveis de contrair infecção nosocomial (hospitalar).

A previsão de um aumento de infecções hospitalares foi feita ao CM por Cristina Costa, responsável pela Divisão de Controlo da Infecção Associada aos Cuidados de Saúde da Direcção-Geral da Saúde. 'Antes morria-se de outro tipo de doenças mas, com o envelhecimento da população, que tem o sistema imunitário debilitado, e com alguns medicamentos, como os imunossupressores, há a tendência para o aumento dos casos de infecção hospitalar.'

Os serviços mais susceptíveis de infecção são as Unidades de Cuidados Intensivos neonatais e para adultos e os serviços de Cirurgia. 'As Unidades de Cuidados Continuados Integrados, com poucos recursos, têm uma taxa de infecção similar aos hospitais, mas poderá aumentar', disse Cristina Costa.

IDOSA DOENTE ESTÁ MELHOR

Antónia da Conceição, 83 anos, residente em Tavira, é outras das dezenas de vítimas da infecção pela ‘clostridium difficile’, contraída no Hospital de Faro. Entrou no serviço de Medicina Interna a 6 de Abril com uma pneumonia e teve alta dez dias depois, supostamente curada. Já em casa, começou a sofrer de fortes diarreias, que a deixaram acamada, sem ver e sem andar.

Regressou ao hospital a 28 de Abril, foi visitada pela família sem qualquer tipo de protecção. Numa das visitas, uma filha é questionada por uma médica por não usar máscara e luvas. É então informada que Antónia da Conceição estava infectada. Mesmo assim, recebe alta, dia 6 de Maio, sendo tratada, em casa, por uma filha, usando luvas, avental e máscara. Nos últimos dias, o estado de saúde de Antónia da Conceição tem melhorado.

APONTAMENTOS

INQUÉRITO

Inspecção-Geral das Actividades em Saúde ilibou, no dia 15, o Hospital de Faro de responsabilidades nas oito mortes ali ocorridas e associadas à bactéria, detectada em Janeiro. A inspecção durou cinco dias.

RELATÓRIO

fonte do Ministério da Saúde justificou essa conclusão porque 'o relatório foi efectuado em bases científicas e não emocionais'. Conclui-se que todos os procedimentos aconselhados tinham sido adoptados pelo hospital.

FUTURO

A mesma fonte diz-se 'atenta' a posteriores desenvolvimentos, não pondo de parte a possibilidade de novo inquérito sobre o assunto, se houver factos novos.

DIARREIA CONTAGIA

Uma das formas de contágio da infecção pela bactéria ‘clostridium difficile’ é através da diarreia, que espalha facilmente a bactéria. A falta de higiene permite o contágio. São recomendadas medidas como a lavagem e desinfecção das mãos. Aconselha-se o uso de máscaras e luvas, quando for necessário o contacto com o doente.

RECURSO A OPERAÇÃO

Quando os sintomas são as diarreias fortes ou a inflamação do intestino delgado é necessário o doente tomar um antibiótico adequado para matar a bactéria. Se o caso for mais grave, e se houver uma ruptura do intestino, o tratamento mais adequado é uma intervenção cirúrgica.

NOTAS

MÃOS: PREVENÇÃO DO CONTÁGIO

A lavagem das mãos é uma das regras mais importantes para a prevenção do contágio da bactéria ‘clostridium difficile’. A lavagem das mãos deve ser feita, especialmente, com água e sabão.

BACTÉRIA: PRESENTE NO CORPO

A bactéria ‘clostridium difficile’ está presente na flora intestinal de três por cento da população adulta e em 66 por cento das crianças, sem causar qualquer espécie de problema.

INFECÇÃO: ANTIBIÓTICOS 

A infecção pela bactéria ‘clostridium difficile’ está associada ao consumo de antibióticos. Esse consumo tem como efeito secundário debilitar a flora intestinal, provocando diarreias.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)