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Correio da Manhã

Sociedade
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Brasileiros manifestam-se em Lisboa contra presença em conferência de ministro da Saúde do Brasil

Participação de Marcelo Queiroga na conferência tem sido muito criticada por alguns brasileiros residentes em Portugal.
Lusa 26 de Outubro de 2021 às 13:39
Marcelo Queiroga
António Costa participa na discussão do OE no Parlamento
Marcelo Queiroga
António Costa participa na discussão do OE no Parlamento
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António Costa participa na discussão do OE no Parlamento
Dezenas de brasileiros juntaram-se esta terça-feira em frente ao hospital de Santa Maria, em Lisboa, para protestar contra a presença do ministro da Saúde do Brasil numa conferência sobre a resposta do Brasil à pandemia de covid-19.

"Para nós é estarrecedor o ministro ser condecorado numa faculdade de Medicina importante como esta, dentro do hospital de Santa Maria", disse à Lusa a dirigente do Coletivo Andorinho Marisie Damin, uma das cerca de 40 pessoas que esta manhã se manifestaram junto à porta de entrada do hospital lisboeta.

"O ministro é um dos responsáveis pelas mais de 600 mil mortes, opôs-se e ainda se opõe hoje ao uso de máscara, que é o princípio básico da proteção [contra a covid-19]", acrescentou a dirigente brasileira, salientando que "o 'ministro da morte' é indiciado por crime de negligência, no mínimo".

A participação de Marcelo Queiroga numa conferência, a convite do presidente da Faculdade de Medicina de Lisboa, tem sido muito criticada por alguns brasileiros residentes em Portugal, que consideram a presença do governante uma afronta às vítimas mortais da covid-19.

"As nossas preocupações são partilhadas pela maioria dos brasileiros, disso não tenho dúvida; as pessoas estão literalmente a morrer, além de morrer da doença, agora menos, é certo, morrem de fome e isso é resultado das políticas deste governo e da negligência", disse a responsável.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à gestão da covid-19, a decorrer no Senado brasileiro, vota esta tarde o relatório final que pede o indiciamento do Presidente, Jair Bolsonaro, por nove crimes e o aprofundamento das investigações contra outros suspeitos.

Com 1180 páginas, o documento apresentado na semana passada pelo senador Renan Calheiros recomenda o indiciamento de outras 65 pessoas e de duas empresas suspeitas de cometerem crimes durante a pandemia de covid-19, que já causou mais de 605 mil mortos e 21,7 milhões de infetados no Brasil.

Os pedidos de indiciamento serão encaminhados para o Ministério Público Federal, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF), caso o relatório seja aprovado pela maioria dos membros da CPI.

O relatório da CPI também poderá ser enviado a entidades multilaterais, como o Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia.

A maioria das acusações estão relacionadas com ações negacionistas, suspeitas de corrupção e de omissão em relação ao novo coronavírus e às vacinas, que teria aumentado o número de mortos no Brasil.

Nas declarações à Lusa à porta do hospital de Santa Maria, Marisie Damin deixou também críticas a Portugal e à Faculdade de Medicina por abrir as portas ao 'ministro da morte', como é apelidado pelos seus críticos.

"É preocupante o tipo de pessoa que Portugal está a querer mostrar e que acolhe; enquanto brasileiros, é uma afronta, é um desrespeito à população brasileira e aos 600 mortos, porque ele é o representante deste governo", disse a responsável, concluindo: "Mobilizámo-nos para dizer que não concordamos com esta honra, porque proferir uma aula magna é uma honra, pedimos informações ao diretor da faculdade, mas sem resposta, e sabemos que foi Queiroga a escolher o tema da palestra, mas se um ministro nazi, por exemplo, viesse da Alemanha a Faculdade de Medicina ia abrir as portas e dizer que não tem responsabilidade sobre o que ele vai dizer?", questionou.

Em comunicado publicado na página oficial da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), na qual se citam esclarecimentos do diretor da instituição, o professor Fausto Pinto, a faculdade justifica o convite ao ministro da Saúde brasileiro, Marcelo Queiroga, como sendo de âmbito académico a "um médico cardiologista, ministro da Saúde dum país amigo".

"Vem visitar a nossa Faculdade, pelo que foi convidado, como académico, a proferir uma conferência, tendo escolhido o tema que entendeu. A Universidade será sempre um espaço aberto, sem tabus ou preconceitos", lê-se no comunicado, publicado no 'site' da FMUL na sequência de vários contactos da comunicação social a questionar a confirmação da presença do ministro brasileiro.

Marcelo Queiroga é um dos visados pela investigação da comissão parlamentar de inquérito que ao longo dos últimos meses avaliou falhas e omissões na ação do Governo brasileiro na gestão da pandemia de covid-19, havendo a recomendação para que seja indiciado por dois crimes -- prevaricação e epidemia com resultado de morte, sendo que neste último a moldura penal varia entre os quatro e os 15 anos de prisão, consoante se prove ou não a intenção de provocar a morte.

A visita do ministro brasileiro a Portugal - mas também ao Reino Unido, onde se desloca para visitas às universidades de Cambridge e Oxford e outras instituições, prevendo-se também a assinatura de protocolos -- foi notícia na imprensa brasileira, com o jornal O Globo a questionar a Universidade de Lisboa sobre a manutenção do convite depois de terem sido conhecidas as conclusões da investigação da comissão parlamentar de inquérito (CPI).

O Brasil tem mais de 600 mil mortes associadas à covid-19 e teve cerca de 22 milhões de casos de infeção pelo novo coronavírus desde o início da pandemia.

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