Na concentração, ouviam-se palavras de ordem como "Isto assim não pode ser: sempre os mesmos a perder".
Cerca de 100 pessoas manifestaram-se, esta segunda-feira, junto à Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), em Lisboa, pedindo melhores condições, com destaque para o contrato coletivo de trabalho e para os salários.
Na concentração convocada pela Federação dos Sindicatos de Agricultura, Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal (FESAHT), que antes da hora marcada já juntava várias dezenas de pessoas, ouviam-se palavras de ordem como "Isto assim não pode ser: sempre os mesmos a perder", ou que os trabalhadores estavam em luta.
Gerné Martins, do sindicato de hotelaria do Centro, trabalha num hotel em Óbidos há 15 anos e veio até Lisboa para reivindicar a atualização da convenção coletiva.
"Os trabalhadores precisam de revisão da convenção coletiva, tendo em conta que é a única arma que temos para conseguir aumentar os salários", disse, apontando que o salário mínimo está cada vez mais próximo do salário médio.
O manifestante lamentou que não tenha havido revisão do acordo coletivo para este ano até agora e que os salários continuam iguais.
"Nós temos de ter isso atualizado de ano a ano", defendeu.
Também Fátima Gaspar, trabalhadora numa bomba de gasolina, numa empresa da Eurest, esteve junto à AHRESP para mostrar o seu descontentamento.
Fátima Gaspar está no mesmo sítio desde 2004 e diz que o salário que recebe não é suficiente.
"Tenho um filho a meu cargo, sou divorciada e não chega. A minha revolta é muito grande, porque não há recompensa, não há um agradecimento, não há nada: somos números, só isso", lamentou.
No entender desta trabalhadora, o que os clientes pagam não se reflete nem no salário, nem nas condições dos funcionários, que se encontram em turnos rotativos.
O dirigente da FESAHT Afonso Figueiredo acusou a AHRESP de recusar rever as tabelas salariais para este ano e defendeu que "o que é necessário é melhorar os contratos coletivos de trabalho, de forma a fixar e a manter no setor" quem nele trabalha.
Uma delegação da FESAHT dirigiu-se à AHRESP para entregar uma resolução, tendo sido recebida por uma trabalhadora da associação.
No documento, a FESAHT assinala que o setor da restauração tem crescido "de uma forma significativa nos últimos anos", inclusive "voltado a atingir índices de crescimento nunca antes vistos" desde 2022.
Ao mesmo tempo, o presidente da AHRESP, Carlos Moura, recebeu vários jornalistas no interior da sede da associação, e disse que tem decorrido diálogo com a FESAHT, incluindo duas tentativas de conciliação na semana anterior.
Esta segunda-feira, a estrutura sindical não foi recebida pela direção porque tal não estava agendado. "Se estivesse agendado, cá estavam, na sala aqui ao lado", disse, acrescentando que já foram feitas "pelo menos cinco ou seis reuniões" com a FESAHT desde o início do ano.
"Há décadas que nos dispomos anualmente ao diálogo social, não fugimos. É um princípio que norteia a nossa instituição e, portanto, todos os anos iniciamos negociações com as estruturas sindicais que existem, de um lado a CGTP, de outro lado a UGT", apontou, dizendo que "não há bloqueio nenhum ao diálogo social".
"O que não há muitas vezes é uma atitude positiva", disse o presidente da AHRESP, que acusou o sindicato de "protelar as negociações".
No entender de Carlos Moura, a economia "não se compadece" com a outorga de contratos em maio, junho ou julho, com efeitos retroativos a janeiro.
Este ano, a associação deverá entregar propostas em agosto para que possa chegar a um acordo com todos até novembro ou dezembro. Questionado sobre o que poderá acontecer se não houver acordo nesta data, Carlos Moura afastou a possibilidade e disse estar confiante.
O principal ponto de discórdia entre AHRESP e FESAHT é, segundo o presidente da primeira, a organização do trabalho, tendo defendido mecanismos como o banco de horas.
O secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, esteve presente na concentração e pediu uma resposta face ao crescimento do turismo.
"Se há mais turismo, se há mais procura, se há mais lucros, então que tudo isto se transforme na valorização e na melhoria das condições de vida" dos trabalhadores, insistiu, dizendo que é um setor "onde cada vez mais existe uma exploração enorme".
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