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Correio da Manhã

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Cientistas do Porto reconstroem história das galáxias usando algoritmos genéticos

Tecnologia foi designada de FADO.
Lusa 16 de Maio de 2017 às 19:01
Galáxias
Galáxias FOTO: Getty Images
Uma nova ferramenta, que permite reconstruir a história da formação de estrelas em galáxias, através do uso de algoritmos genéticos, foi desenvolvida por cientistas do polo do Porto do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA).

Esta tecnologia, designada FADO, vai reconstruir, "com muito mais exatidão e eficiência", a história de formação das galáxias, utilizando a luz emitida pelas estrelas e pelo gás ionizado de uma galáxia, recorrendo a algoritmos genéticos, disse à Lusa o astrofísico do IA Jean Michel Gomes, um dos responsáveis pelo projeto.

Esses algoritmos "simulam a evolução de uma galáxia como se de um organismo vivo se tratasse", criando "múltiplos indivíduos, cada um deles a representar uma possível linha genética para a galáxia, definida por uma série de parâmetros (semelhantes a um código genético, como o ADN)", explica o IA num comunicado hoje divulgado.

Os indivíduos criados "evoluem através de cromossomas, mutações e efeitos de seleção, até que se obtenha uma população que reproduz a emissão observada das estrelas e gás na galáxia", acrescenta o documento.

De acordo com Jean Michel Gomes, a luz emitida pelas galáxias é uma mistura da emissão gás e de estrelas e, através desta, é possível realizar uma decomposição em diferentes tipos de populações de estrelas.

"Se tivermos uma galáxia onde estrelas jovens, intermediárias e velhas contribuem em 50%, 30% e 20% [para a luz emitida], respetivamente, mas não sabemos de antemão estes valores, então precisamos analisar a luz e verificá-los", disse.

As diferentes populações de estrelas "acumulam-se com o passar dos anos numa galáxia e, de certa forma, podem ser consideradas como os registos fósseis da formação presente e passada, ou seja, é como fazer Paleontologia Galáctica", explicou.

Os modelos anteriores a este "tinham grandes incertezas", "em parte porque só tinham em conta a contribuição da luz emitida pelas estrelas", no entanto, "a contribuição do gás ionizado pode somar até 50% de toda a luz da galáxia", lê-se na nota informativa.

Segundo Jean Michel Gomes, a escolha do nome FADO deve-se a uma homenagem a este tipo de música, que tanto o investigador como o astrofísico do IA Polychronis Papaderos, também envolvido no projeto, "adoram", simbolizando ainda "a biografia e o destino das galáxias, de uma forma icónica e emblemática".

Cada galáxia tem um "fado, uma narrativa da sua biografia, desde o nascimento das primeiras estrelas", indica ainda o IA no comunicado, acrescentando que esse "destino" está "escrito no seu espetro eletromagnético, que contém os registos fósseis das múltiplas gerações de estrelas que se formaram, ao longo de milhares de milhões de anos, bem como do gás que essas estrelas ionizam com a sua radiação".

"Pessoalmente, FADO remete para as minhas origens portuguesas e faz parte das minhas raízes", concluiu Jean Michel Gomes.

Esta ferramenta foi apresentada recentemente no artigo "Fitting Analysis using Differential Evolution Optimization (FADO): Spectral population synthesis through genetic optimization under self-consistency boundary conditions", aceite para publicação na revista científica 'Astronomy & Astrophysics".

O projeto "An exploration of the assembly history of galaxies with the novel concept of self-consistent spectral synthesis (FADO)", que demorou cinco anos a ser desenvolvido, foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
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