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Correio da Manhã

Sociedade
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Cirurgia ajuda a controlar movimento

Os músculos errados contraem-se quando tentamos mover-nos ou contraem-se desnecessariamente mesmo quando não queremos, causando torções descontroladas, tremores e contracções. Todos estes sintomas correspondem a um caso típico de distonia, uma doença de baixa incidência, mas altamente incapacitante. O Hospital de Santo António, no Porto, operou recentemente, pela primeira vez, uma doente distónica.

10 de Maio de 2009 às 00:30
Em 55% dos casos a intervenção cirúrgica traz muitos benefícios para o doente
Em 55% dos casos a intervenção cirúrgica traz muitos benefícios para o doente FOTO: D.R.

Os primeiros indícios são de sucesso, e espera-se que Sara Cristina recupere a capacidade de escrever e de agarrar os objectos com segurança. No entanto, os resultados visíveis desta cirurgia podem demorar em alguns casos até seis meses a aparecerem.

"Em média, 55 por cento dos doentes melhoram. Não há forma de prever, mas é sempre de esperar melhorias", explicou ao CM o neurologista Alexandre Mendes, elemento da equipa médica responsável pela cirurgia. "É importante que o doente entenda bem os benefícios e os riscos e decida", acrescentou.

Os riscos são baixos, verificam-se em um a dois por cento dos casos, e traduzem-se numa possível hemorragia cerebral ou numa infecção intracraniana. Também na abertura das meninges é susceptível a entrada de ar. Há ainda as complicações mecânicas, em que o eléctrodo se parte ou desloca.

Por outro lado, uma operação bem sucedida, para a qual só se avança depois de todas as outras terapêuticas falharem, pode permitir ao doente voltar a ter qualidade de vida. "Isso mede-se na capacidade de convívio, de vida social e no não ter medo de sair à rua", sentenciou Alexandre Mendes.

A cirurgia de Sara demorou cerca de 12 horas e é fruto de um trabalho multidisciplinar que envolve neurologistas e neurorradiologistas. Após a identificação do local em que os eléctrodos serão colocados e escolhido o trajecto, são avaliados os contactos a escolher. É ainda introduzida uma bateria que regulará, posteriormente, os estímulos cerebrais.

As causas desta doença não são totalmente conhecidas. Em alguns casos poderá ser a consequência de um desequilíbrio químico numa zona particular do cérebro, que leva à desregulação dos movimentos corporais.

NEM TODOS PODEM SER OPERADOS

Há algumas contra-indicações cirúrgicas para os distónicos, entre as quais a deterioração cognitiva, que se traduz numa diminuição das capacidades intelectuais ou numa depressão grave. Para se avançar para a intervenção cirúrgica é necessário ainda que sejam queimadas outras etapas, como a medicamentosa. É ainda necessário que a doença tenha uma evolução de pelo menos três anos.

"As distonias primárias, em que não há uma causa directa, são as mais indicadas para cirurgias, o que não quer dizer que algumas secundárias não o possam ser. Dentro das primárias, sobretudo", disse ao CM António Bastos Lima, director do serviço de Neurologia do Hospital de Santo António.

"RESULTADOS NÃO SÃO IMEDIATOS" (António Bastos Lima, Director Serviço de Neurologia Hosp. St.º António)

Correio da Manhã – Qual era o quadro clínico da primeira doente a ser operada no Hospital de Santo António?

Bastos Lima – Esta doente tem uma postura muito móvel, não fixa, que atinge sobretudo as mãos, muito usadas no dia-a-dia e, no caso concreto, na vida profissional.

– Pode-se esperar uma melhoria imediata?

– Os resultados numa cirurgia de distonia não são imediatos, como nos doentes de Parkinson. Os resultados são avaliados mais tardiamente, podendo levar meses, ou até um ano, porque os circuitos de interacção entre as estruturas e os gânglios da base têm comportamentos diferentes.

– Em que consiste a cirurgia?

– Abre-se um buraco no crânio, na dura-máter, uma meninge, e depois introduz-se um eléctrodo enviado pelas trajectórias previamente definidas, de acordo com os parâmetros que a imagem nos dá. É colocado um de cada lado do cérebro. Estão ambos ligados a um neuroestimulador que permite escolher os parâmetros da estimulação, colocado debaixo da clavícula.

– Sabe-se qual o número de pessoas que sofrem de distonia em Portugal?

– Não há números concretos em Portugal, porque não foi feito nenhum teste epidemiológico. Mas a incidência, pode dizer-se, é baixa e menor do que os doentes com Parkinson.

TIPOLOGIA

FOCAIS

As formas focais de distonia são as que acometem uma regiãolimitada do corpo. Na maioria das vezes o início dos sintomas ocorre na idade adulta, geralmente após os trinta anos. Neste grupo destaca-se o torcicolo espasmódico, a forma mais comum de distonia, que acomete os músculos que sustentam o pescoço.

GENERALIZADAS

São formas mais raras. Os primeiros sintomas ocorrem na infância ou na adolescência, geralmente na forma de contracções distónicas num ou ambos os pés, inicialmente durante o andar e, com o passar do tempo, também durante o repouso.

SEGMENTARES

Nas distonias segmentares, vários grupos musculares situados em regiões vizinhas são acometidos. O exemplo mais comum é a distonia cranial.

SARA QUER RECUPERAR PARTE DAS CAPACIDADE MOTORAS

"Há dez anos, deitei-me normalmente e durante a noite acordei com um braço a tremer de uma forma muito forte. Senti o braço a bater na cama descontroladamente. A partir daí a doença só foi piorando", relembra Sara Cristina, de 38 anos, natural de Oliveira de Azeméis e a primeira distónica a ser operada no Hospital Santo António, no Porto.

A vida social e laboral foi-se degradando, com a incapacidade de levar um copo ou um talher à boca e de se vestir sozinha. Só a ajuda de uma família sempre presente a levou a conseguir suportar as fraquezas.

As mãos tremem sempre que pegam no que quer que seja, mas ainda assim Sara é trabalhadora manual, numa fábrica de componentes de automóveis. "Pego em pequenos lotes e coloco em caixas. Se fossem pesados já não conseguia. Tenho a ajuda das minhas colegas, sem as quais não conseguia. Se não fossem elas já tinha desistido há muito", conta Sara Cristina. A cirurgia levou a que esta mulher ganhasse um novo sorriso.

"A operação devolveu-me a esperança, espero que corra bem e que pelo menos me devolva uma percentagem das minhas capacidades", confessa.

Dias depois de ser operada, o CM visitou Sara na enfermaria do Serviço de Neurologia, e encontrou-a com grande vitalidade. Confessa já sentir melhoras. Envolvida pela família, relatou os sonhos de um futuro mais feliz, em que quer recuperar do desespero que sentiu na fase inicial da doença. "Uma pessoa entra em desespero porque não é fácil. Tive sempre uma saúde de ferro. Quando isto me apareceu, lidei muito mal com a situação e não queria sair de casa. Não comia à beira das pessoas porque tinha vergonha", recorda.

PERFIL

Sara Cristina tem 38 anos e há dez que sofre de distonia. Foi um longo percurso que teve de percorrer – vários especialistas consultados e muitos medicamentos tentados – até que no mês passado foi alvo da primeira cirurgia no Hospital Santo António.

NOTAS

MÚSICOS AFECTADOS

Um grande número de músicos são afectados por distonia focal, relacionada com tarefas específicas.

INJECÇÃO BOTULÍNICA

Um dos tratamentos de maior êxito é a injecção local de botulina no interior dos grupos musculares.

QUATRO ANOS

O Hospital de Santo António começou há quatro anos a fazer a estimulação cerebral profunda.

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