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Correio da Manhã

Sociedade
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Cirurgia minimiza deformação

Uma cirurgia realizada nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) permite tratar com sucesso pessoas com elefantíase, uma doença parasitária, transmitida pela picada de um mosquito, que afecta 120 milhões de pessoas em todo o Mundo.

19 de Fevereiro de 2012 às 01:00
Cirurgia realizada em Coimbra faz a excisão dos tecidos afectados
Cirurgia realizada em Coimbra faz a excisão dos tecidos afectados FOTO: Ricardo Almeida

A patologia provoca uma alteração nos vasos linfáticos e consequentemente graves deformidades nos membros, sobretudo nas pernas, deixando os doentes incapacitados. O tratamento cirúrgico realizado pelo Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) permite a reparação dessas deformações. "Extraímos o tecido que está lesado para permitir o contorno do membro o melhor possível e aproveitamos a pele que conseguimos conservar. Em zonas em que não é possível, porque a destruição é completa, teremos de recolher pele de outra zona e enxertar a área afectada", explica Celso Cruzeiro, director do serviço de Cirurgia Plástica dos HUC.

Nos casos mais avançados, são necessárias várias cirurgias, uma para excisão dos tecidos que estão alterados e "mais duas ou três de recuperação". No caso mais recente tratado nos HUC – dois gémeos são-tomenses –, foram feitas quatro cirurgias.

O serviço realizou até hoje uma dezena de operações a doentes com elefantíase. A maior parte dos pacientes tratados são oriundos dos países de língua oficial portuguesa. É o caso de São Tomé e Príncipe, que já pediu ajuda aos HUC para operar mais 30 pessoas. Segundo José Diogo, cônsul de São Tomé e Príncipe em Portugal, "a única solução é irem para Portugal, pois não temos condições para os tratar".

DOENTES CORREM SÉRIOS RISCOS DE AMPUTAÇÃO

Nos casos em que a doença está muito avançada, os pacientes correm sérios riscos de amputação dos membros afectados. Nomeadamente devido às infecções repetidas. Os membros afectados chegam a um ponto em que deixam de funcionar.

INFECÇÕES E OPERAÇÕES CAUSAM EDEMA

A obstrução linfática, que está na origem das deformações de braços e pernas, pode ter outras causas. Nos braços, pode acontecer em mulheres operadas ao cancro da mama. Estes casos são cada vez mais raros, porque as cirurgias são mais rigorosas. Nas pernas, ocorrem por doenças, infecções, traumatismos ou cirurgias que destroem o sistema linfático. Nos HUC, foi tratado um doente de 40 anos com edema numa perna causado por infecção. Tudo devido a uma ferida, num joelho, que teve em criança.

PREVENIR A DOENÇA EVITANDO PICADAS DE MOSQUITO

A melhor forma de evitar a elefantíase é através da prevenção em relação às picadas do mosquito que a transmite. Melhoria dos cuidados de higiene e das condições de habitação e uso de redes mosquiteiras e cremes repelentes são medidas aconselhadas.

DISCURSO DIRECTO

"AJUDAR O DOENTE A TER VIDA NORMAL", Celso Cruzeiro, Director Cirurgia Plástica dos HUC 

Correio da Manhã – Quais os sintomas da doença?

Celso Cruzeiro – Febre, infecção, mas também há alterações do sangue.

– Qual o tratamento?

– São antiparasitários. É a tentativa de tentar matar as filárias que entram no sangue e o tratamento conservador com a compressão do membro afectado para ajudar a linfa a ser drenada. Deve-se ainda manter a perna mais alta e ter cuidado com a higiene para prevenir as infecções bacterianas. O tratamento cirúrgico faz-se através da excisão dos tecidos.

– A elefantíase tem cura?

– Não. Mesmo após a cirurgia, não resolvemos a patologia de base. Mas o uso de meias compressivas – para não deixar os tecidos dilatarem e ajudar a linfa a ser drenada – pode ajudar o doente a manter uma vida normal durante anos.

O MEU CASO: NILTON E NELSON

"TINHA VERGONHA E NÃO DAVA PARA ENTRAR NUMA LOJA"

Ao fim de muitos anos de sofrimento, Nilton e Nelson Sacramento, dois gémeos são-tomenses de 33 anos, que sofrem de elefantíase, regressaram ao seu país após tratamento nos HUC. Sofrem de elefantíase desde a adolescência. Com uma das pernas completamente deformada, não conseguiam "dar mais de meia dúzia de passos" sem parar, devido ao peso.

Após três meses de internamento em Coimbra, um dos gémeos foi submetido a quatro intervenções cirúrgicas e o outro a três para retirar, num deles, cerca de sete quilos de tecidos lesados, e no outro quatro quilos. "Eles sofriam muito. Além da doença, é o estigma social. Eram escorraçados de todo o lado", conta José Diogo, cônsul de São Tomé e Príncipe em Portugal. Devido ao problema, o isolamento era o único caminho, admitiram na altura em que estiveram em Coimbra: "Com o problema da perna, tinha vergonha, não dava para entrar numa loja, não dava para parar no meio de amigos."

Após a intervenção, tudo mudou. "Hoje estão felizes e a recuperar bem. Até já conseguem vestir umas calças", garante José Diogo, que se encontra actualmente em São Tomé. A prioridade agora "é encontrar uma casa para eles, mas estamos a tratar do assunto".

Nilton e Nelson foram descobertos por um membro da Associação Padre Manuel (Cantanhede) numa missão de solidariedade a São Tomé. A colaboração entre as instituições permitiu o tratamento em Coimbra.

DOENÇA PARASITA COIMBRA MOSQUITO ELEFANTÍASE
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