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Correio da Manhã

Sociedade
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Coração traiu Gabriel Fialho

Cozinha portuguesa ficou mais pobre com a morte de Fialho, aos 77 anos
28 de Maio de 2013 às 01:00

O cozinheiro de um dos mais famosos restaurantes de Portugal morreu domingo à noite. No Fialho, em Évora, Gabriel (1936-2013) desenvolveu uma cozinha inspirada nas tradições. Quando não estava a cozinhar, Gabriel andava por mercados, bibliotecas e tascas à procura de receitas e produtos que revelassem a genuinidade alentejana. Em Évora, território de capelas de restauração, Gabriel e os irmãos Amor e Manuel fundaram uma "catedral" (já dizia António Saramago).

Homem de noitadas sem fim, numa bela madrugada, depois de muitos copos e cartas a bater na mesa, o anfitrião da casa obrigou Gabriel a fazer uma açorda. Este, vendo a escassez de temperos verdes, recusou-se. Os outros insistiram. Dali não saíam sem a açorda. O cozinheiro, contrafeito, foi ao quintal e não encontrou outra erva para substituir os coentros que não fosse o escalracho (erva de jardim).Moeu-a com os alhos e envolveu-a com o pão. Fosse pela fome, fosse pelos copos, todos lamberam os beiços.

A família, os amigos, os touros e o fado eram outras paixões. Recentemente, estiveram lá em casa fadistas com violas e guitarras, e ele, em dificuldades, ainda cantou. Amigo de longa data de Gabriel, o enólogo Domingos Soares Franco esteve ontem no velório. "Quando soube que a urna estava aberta, fiquei cá fora. Da última vez que estive no Fialho, ele já estava muito doente, em casa, mas veio cá dar-me um abraço e uma grande gargalhada. Não falámos muito. Veio cá só para dar à comida o riso dele. É esta imagem que quero guardar do Gabriel."

Gabriel Fialho começou a trabalhar na tasca do avô aos 14 anos. Morreu domingo, aos 77 anos, devido a complicações cardíacas e respiratórias.

COZINHA RESTAURANTE FIALHO ÉVORA COZINHEIRO
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