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Correio da Manhã

Sociedade

Crónica e sem cura

As causas permanecem desconhecidas, mas as consequências são bastante reais e nos casos mais severos muito duras. Em Portugal, estão identificados 3580 doentes de colite ulcerosa, mas estima-se que possam ser o dobro. Esta é uma patologia crónica em que o intestino grosso se inflama e ulcera, provocando como sintomas mais frequentes a diarreia com sangue, cólicas e febre.
8 de Fevereiro de 2009 às 00:30
Transmissão genética cifra-se entre os dez e 15 por cento
Transmissão genética cifra-se entre os dez e 15 por cento FOTO: D.R.

"Esta é uma doença que não tem cura, apenas tratamento e isso tem melhorado bastante nos últimos anos, permitindo aos doentes terem uma qualidade de vida mais aceitável", disse ao CM Paula Lago, médica especialista do Hospital Santo António, no Porto.

Quanto ao que promove a doença, que surge sobretudo entre os 20 e os 30 anos, mantém-se a incógnita, apesar de haver algumas pistas.

"Há uma certa susceptibilidade genética que se cifra entre os dez e os 15 por cento, mas a larga maioria não tem nenhum caso da doença na família. Sabemos que os factores ambientais não têm influência", acrescentou a clínica. Grande parte do desconhecimento reflecte-se em questões alimentares. "Muitos doentes pensam que não podem beber leite, o que não faz sentido porque não há qualquer relação", afirmou Paula Lago.

Se os sintomas mais frequentes são a diarreia com sangue e a dor abdominal, a doença pode ter manifestações articulares, dermatológicas e oculares (com inflamações nos olhos).

A colite ulcerosa caracteriza-se também pelas oscilações de intensidade, cujos episódios mais severos, que atingem trinta por cento dos doentes, acabam muitas vezes em internamentos, que podem em alguns casos durar mais de um mês. Nessas situações, o "doente pode ter até sete dejecções por dia, perda acentuada de sangue e dores abdominais muito fortes".

Os fármacos já permitem controlar a colite ulcerosa na maioria dos casos. Mas numa percentagem muito baixa de pacientes, cerca de quatro por cento, quando não responde aos medicamentos nas primeiras 48 horas após a crise, com quadro abdominal severíssimo, é dada indicação para a cirurgia.

PODE LEVAR AO ISOLAMENTO

A colite promove alguns constrangimentos na vida dos doentes. "Causa problemas como a necessidade de uma casa de banho que pode não existir. Há que fazer um plano mental dos caminhos que fazem, por exemplo, entre a casa e o emprego para que não aconteça uma situação desagradável ", explica a presidente da Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino (APDI). Nas fases de exacerbação da doença "há quem tenha tendência para o isolamento ou evite certas actividades sociais", acrescenta.

COLONESCOPIA É O EXAME MAIS FREQUENTE

A colonoscopia é o exame mais comum para a detecção da colite ulcerosa. É um procedimento seguro, que permite a observação do recto e do intestino grosso (também designado cólon) até ao cego. O colonoscópio é um tubo flexível com uma lente e uma fonte de luz, permitindo ao endoscopista olhar através do endoscópio ou de um monitor.

PORMENORES

ANEMIA

Devido à perda massiva de sangue durante as fases críticas da doença, provoca muitas vezes anemia por défice de ferro.

CANCRO

O risco de cancro do cólon é mais elevado quando a colite afecta a totalidade do intestino grosso ou a pessoa sofreu da doença mais de 10 anos.

CONSEQUÊNCIA

A extirpação cirúrgica total do cólon e do recto e uma solução. A consequência é que o paciente deve viver com uma ileostomia.

ANA SAMPAIO, PRESIDENTE DA APDI: "QUEREM INFORMAÇÃO"

Correio da Manhã – Quais são as reacções mais recorrentes de quem descobre a doença?

Ana Sampaio –O primeiro sentimento é de desconhecimento do que é a doença e de quais são as consequências. Também querem saber o que podem fazer para melhorar a qualidade de vida.

– Mas reagem bem?

– Assustam-se muito por saberem que é uma doença crónica, mas querem recolher o máximo de informação.

– Há necessidade de acompanhamento psicológico?

– Na associação fazemos um maior acompanhamento social com troca de experiências, mas nos hospitais existem equipas pluridisciplinares que fazem esse trabalho.

O MEU CASO: VERA COELHO

OBRIGADA A SER ESPECIAL

Foi há dez anos que a vida de Vera Coelho, de 23 anos, mudou de forma irremediável. As dores de barriga, diarreias, mas especialmente os vómitos, lançaram o alerta vermelho. Algo de errado se passava, mas até que tivesse notícia do diagnóstico final passaram três meses. A doença inflamatória no intestino só foi descoberta depois de uma longa bateria de exames.

Os sentimentos vividos nessa altura, cataloga-os de contraditórios. "Alívio e preocupação. Se por um lado estava farta de tantos médicos e exames e queria ver-me livre daquilo, ao saber que a doença era crónica, surge sempre o medo associado", revela a jovem, que trabalha em Psicologia Educacional.

As contingências da doença – ficava duas a três vezes por ano internada – sempre a obrigaram a ser "especial": na escola, em casa, no que fazia. "Adaptei-me bem, muitas vezes tinha de dar força principalmente à minha mãe que sofreu bastante", conta Vera. "Com a toma do Infliximab a minha qualidade de vida melhorou bastante e só me lembro de tempos a tempos do que tenho", concretiza.

PERFIL

Vera Coelho, de 23 anos, é psicóloga educacional e descobriu a doença há dez anos, mas diz que se adaptou bem às suas contingências.

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