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Correio da Manhã

Sociedade
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Diagnóstico de Endometriose surge com dez anos de atraso

Dores intensas estão associadas à menstruação. Mulheres não conseguem ir trabalhar.
Daniela Polónia 15 de Setembro de 2018 às 09:53
Endometriose
Infertilidade
Ana Cláudia Ameixa
Filipa Osório
Endometriose
Infertilidade
Ana Cláudia Ameixa
Filipa Osório
Endometriose
Infertilidade
Ana Cláudia Ameixa
Filipa Osório
Se a maior parte das mulheres falar com a mãe, ou até com o médico de família, é comum dizer-se que ter dores durante a menstruação é normal e que irá passar. Só que, a partir de determinado grau, é preciso procurar ajuda. Esta ideia contribui para um atraso de sete a dez anos no diagnóstico da endometriose, desde o início das queixas", explica a ginecologista Filipa Osório.

A doença crónica provoca dores incapacitantes, sobretudo na região pélvica, e associa-se à menstruação. Dependendo dos casos, as dores podem ser mais agudas, tipo 'facada', quando a mulher vai urinar e defecar ou durante as relações sexuais.

"Numa escala de 0 a 10, as dores que são classificadas de sete para cima já têm uma interferência no dia profissional e familiar. Muitas destas mulheres não saem da cama. Tenho doentes que até fazem um esquema na pílula para terem a menstruação ao fim de semana porque já sabem que naqueles dias não conseguem ir trabalhar", refere a médica do Hospital da Luz, em Lisboa.

Na endometriose, as células que constituem o endométrio crescem fora do útero e dão origem a quistos, nódulos ou a aderências.
Esta é uma doença que é característica das mulheres em idade reprodutiva e, até à menopausa, pode evoluir.

O MEU CASO
"E uma volta na montanha-russa"
Foi só ao fim de 13 anos de queixas que Ana Cláudia Ameixa foi diagnosticada com endometriose. "Antes da operação tinha dores incapacitantes. Durante a menstruação não conseguia ir trabalhar durante três dias", recorda a jornalista de 29 anos, que vive em Alverca do Ribatejo.

Ana Cláudia sofre ainda de outros sintomas, como prisão de ventre e cólicas intestinais, que a fazem vomitar. "É difícil comprometer-me com tarefas ou momentos de lazer, pois fico cansada muito depressa, mesmo só a caminhar. É também usual acordar cansada. Cada dia é uma volta gratuita numa montanha-russa", afirma.

Para esta mulher com endometriose, a doença ainda é muito incompreendida. "É dilacerante ouvir coisas como : 'ter dores menstruais não é desculpa para faltar ao trabalho' ou 'és tão fraquinha'. "Estamos a ser constantemente rotuladas", lamenta.

Doença é associada a casos de infertilidade
Um terço das mulheres com endometriose, em casos mais graves, é infértil. Pode haver uma reação inflamatória que provoca aderências - nesses casos, a trompa e os ovários não funcionam de forma normal e podem ficar obstruídos, o que condiciona a gravidez.

"Por outro lado, como é uma doença inflamatória, há várias alterações que evitam o encontro entre o espermatozoide e o óvulo, não possibilitando assim a ocorrência de gravidez", explica a ginecologista Filipa Osório. Em média, 40 a 50 por cento das mulheres que são inférteis sofrem de endometriose.

A pílula, muitas vezes, permite controlar a dor e estabilizar as lesões. Se a mulher não quiser engravidar, pode fazer o medicamento até à menopausa. "Só que para engravidar precisa de não tomar a pílula. E se tiver dores durante o sexo, não vai conseguir manter relações. Assim, pode haver indicação para cirurgia para retirar os nódulos, conseguir engravidar e melhorar a qualidade de vida", explica Filipa Osório.

PORMENORES
Reduzir a lactose
As mulheres com endometriose têm intolerâncias alimentares. É então preciso restringir o consumo de lactose, do glúten e das carnes vermelhas para haver menos desconforto abdominal. Além disso, o exercício físico permite controlar a dor.

Quistos maiores
Além dos casos associados à infertilidade, a cirurgia pode ser indicada em situações de endometriose profunda quando há quistos nos ovários de uma dimensão maior. E também, por exemplo, quando os nódulos invadem a parede do intestino.

Laparoscopia
A cirurgia por laparoscopia é minimamente invasiva. É feita através de pequenas incisões na pele do abdómen. O pós- -operatório é menos doloroso e o internamento é breve. Este método permite conservar melhor a fertilidade da mulher.

DISCURSO DIRETO
Filipa Osório, ginecologista Hospital da Luz, Lisboa
"Dizem sentir-se cansadas"
Há dores durante a menstruação que sejam normais?
Filipa Osório: Há mulheres que têm dores quando estão menstruadas e isso é apenas uma menstruação dolorosa, que passa com anti-inflamatório, e fazem uma vida normal. Quando essa dor se torna incapacitante e interfere com o dia a dia, então é motivo para suspeitar de endometriose.

Qual é a prevalência?
Filipa Osório: Esta doença atinge 10 a 15 por cento das mulheres em idade fértil.

É comum o cansaço estar associado aos sintomas?
Filipa Osório: Estas doentes dizem sentir-se mais cansadas. Não sei se pelas dores consecutivas - um dia com dor é disfuncional para qualquer um - se pela inflamação característica da doença.
Ana Cláudia Ameixa Filipa Osório Lisboa Hospital da Luz Alverca do Ribatejo Pode saúde medicina
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