Gonçalo Lobo Xavier diz que modernização permitirá que seja possível que todos consigam crescer para a retoma económica.
O diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) defendeu, em entrevista à Lusa, que os sindicatos devem "modernizar-se" para que seja possível que todos consigam crescer para a retoma económica.
"Acho que aos sindicatos não lhes resta outra solução senão modernizarem-se e abrirem as suas perspetivas e esquecer um bocadinho os seus bloqueios ideológicos para conseguimos todos sobreviver e crescer para a tal retoma económica", afirmou Gonçalo Lobo Xavier.
"Não sei responder nem os grandes especialistas saberão quando é que teremos retoma económica, mas seguramente a retoma económica não se faz se não houver vontade de todos os intervenientes em melhorar as condições dos trabalhadores", sublinhou o responsável.
Ou seja, "falo na melhoria do contrato coletivo de trabalho -- que nós, aliás, agora estamos numa fase interessante outra vez da negociação com os sindicatos --, mas para isto é preciso criar condições para que as pessoas tenham mais formação, tenham melhor formação, estejam disponíveis para perceber que o mundo do trabalho está em constante mudança e sem essa mudança e sem essa aceitação por parte dos sindicatos não é possível fazer este crescimento", defendeu.
Questionado sobre para quando a retoma económica, Gonçalo Lobo Xavier afirmou: "É uma pergunta de um milhão de euros".
Acima de tudo, disse, "tem que haver aqui uma vontade coletiva e uma vontade política de perceber que não há soluções únicas (...) e que tem de se saber conseguir definir prioridades".
E essa definição de prioridades "não tem a ver apenas com injeções de capital nas empresas ou saber quem é que salvamos e quem é que não salvamos", mas "é preciso ter a capacidade de perceber que temos que renovar a nossa economia, renovar as nossas empresas, dar condições financeiras para as empresas reinvestirem e investirem na formação dos seus colaboradores, serem capazes de explicar de mãos dadas com os sindicatos de que há uma necessidade de formação crescente para os colaboradores", prosseguiu.
O setor da distribuição em Portugal conta com 130 mil pessoas, divididas entre 90 mil no retalho alimentar e 40 mil no retalho especializado.
"Estas pessoas foram constantemente convidadas a se reinventar, a terem um contacto com novas realidades, com a digitalização, com a economia circular, tudo isto veio para ficar", apontou.
E as empresas, sobretudo as pequenas e médias empresas (PME), "precisam de capital para investir, de capital para sustentar as suas empresas, mas precisam de dar formação aos colaboradores para que eles percebam estas mudanças, e aqui "os sindicatos têm um papel importantíssimo", reforçou.
"É definitivamente a altura de termos um movimento político em defesa do trabalho e da renovação das competências das pessoas e isto só se faz se as empresas e os colaboradores, e em concreto os sindicatos, estiverem juntos e a trabalharem para o mesmo lado", defendeu Gonçalo Lobo Xavier.
Sobre o Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), a APED segue "toda a cartilha da CIP", a qual subscreve.
"Temos que ser eficientes na alocação de recursos. Nós já falávamos que os próprios quadros comunitários de apoio eram as últimas hipóteses para o crescimento e o financiamento da economia e a criação de projetos mobilizadores para a economia", agora "em cima das últimas oportunidades (...) temos a possibilidade de termos dentro do quadro europeu um mecanismo de financiamento sem paralelo para resolver problemas que são estruturais de Portugal", considerou.
Esta é "mesmo a última" oportunidade, "não temos qualquer dúvida sobre isso e, por isso, é preciso dotar o país de infraestruturas que sejam eficazes, duradouras e que não passem apenas por salvar as empresas do Estado ou algumas estruturas do Estado quando são as empresas que investem melhor e que podem aproveitar e canalizar o conhecimento que existe em Portugal em inovação, transformar a inovação em riqueza, transformar tecnologia em mais postos de trabalho", salientou.
Durante a entrevista, Gonçalo Lobo Xavier reiterou a necessidade de acelerar o desconfinamento nos espaços comerciais, salientando que são cumpridas todas as regras de segurança.
Uma das medidas que defende é dobrar o número de pessoas por 100 metros quadrados (atualmente é de cinco), garantindo que é possível manter o nível de segurança sanitária e evitar aglomerados à porta das lojas. Com isso, aumenta-se o tráfego de pessoas na loja, mais fluidez e um equilíbrio entre saúde pública e economia, considerou.
Esta medida ajudaria à recuperação do setor do retalho especializado, defendeu.
Quase três anos como diretor-geral da APED (11 de setembro), Gonçalo Lobo Xavier faz um balanço positivo, salientando que a distribuição é um setor "vibrante" e que tem "um potencial de crescimento e de modernização constante".
"Não conheço um setor que seja mais impactante no dia-a-dia dos cidadãos como o retalho", rematou.
Depois de ter cancelado o congresso no ano passado, a APED vai fazer uma 'Spring Conference' (conferência de primavera) em 18 de maio, num evento digital, cujos detalhes irá revelar em breve.
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