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Correio da Manhã

Sociedade
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Doença da próstata tratada com botox

Se há grande probabilidade de uma doença afectar todos os homens, essa é a hiperplasia benigna da próstata (HBP). Caracterizada pelo aumento do volume da glândula, que afecta a uretra e causa obstrução ao fluxo urinário, manifesta-se a partir dos 50 anos. Apesar de a maioria dos pacientes não apresentar sintomas, há várias terapêuticas. O Hospital de São João, no Porto, está a desenvolver um tratamento experimental que consiste na injecção de botox.

5 de Junho de 2011 às 00:30
A medicação, a injecção de botox e a cirurgia são os tratamentos
A medicação, a injecção de botox e a cirurgia são os tratamentos FOTO: António Rilo

A próstata é uma glândula do sistema reprodutor masculino situada na parte inferior da bexiga e que tem no seu interior a uretra (por onde é eliminada a urina). Quando a próstata cresce, devido à idade do homem e aos níveis inadequados de testosterona, altera a forma da uretra prostática, cujo tubo se torna mais estreito.

Isso resulta, numa primeira fase, em sintomas como jacto urinário mais fraco e micção mais prolongada e lenta. Numa segunda fase, quando altera o funcionamento da bexiga, o homem passa a urinar muitas vezes ao longo do dia e da noite. Para 75% dos homens, que não apresentam sintomas, a doença só precisa de ser vigiada. Os restantes podem ser tratados com medicação e cirurgia. Mas agora há uma terapêutica intermédia, com o tratamento de injecção de botox.

"Começámos há três anos e já foram tratados cinquenta doentes. Com uma injecção atrasamos em dois anos a cirurgia em dois terços dos casos", explicou ao Correio da Manhã o director do serviço de Urologia do São João, Francisco Cruz. O tratamento ainda está em fase de aprovação. 

INVESTIGAÇÃO INOVADORA A NÍVEL MUNDIAL

A aplicação da toxina botulínica (botox) na próstata, para tratar a hiperplasia benigna, é uma investigação inovadora a nível mundial. A solução surgiu para ser uma alternativa para aqueles a quem a medicação não fazia efeito e para os que tinham indicação para ser operados apesar de terem más condições cirúrgicas. Uma injecção de botox, feita em regime de ambulatório, é suficiente para ano e meio. O tratamento está a ser objecto de estudos multicêntricos internacionais.

DISCURSO DIRECTO

FRANCISCO CRUZ, DIRECTOR DE URULOGIA HOSPITAL DE SÃO JOÃO: "É UM PROBLEMA PRÓPRIO DA IDADE"

Correio da Manhã – O que é que os homens devem saber sobre a hiperplasia benigna da próstata?

Francisco Cruz – Que é um problema próprio da idade. Não sabemos porque aparece, coma o homem o que comer, seja de que raça for. Não há nada que possa fazer. Se só 25% desenvolvem sintomas, então 75% não precisam de medicação mas de aconselhamento. É dos diagnósticos mais comuns em todo o Mundo na urologia, porque quanto mais velhos, maior a próstata.

– Para além do aconselhamento, que tratamentos existem?

– Se tiver sintomas que o incomodem, há tratamento farmacológico. Caso não responda ou tenha uma alteração que não seja solucionada pelo tratamento farmacológico, terá de ser operado.

– Como é que nasceu a investigação sobre a aplicação de botox?

– Foi uma indicação por compaixão a quem tinha más condições cirúrgicas. É uma alternativa importante. Neste serviço todos fazemos investigação, para além da assistência aos doentes e do ensino. 

O MEU CASO

JOSÉ ALEXANDRE: "DE MANHÃ TINHA SEMPRE DE 'FORÇAR' A URINAR"

A história de José Alexandre, de 56 anos, é comum à de outros homens. José, de nacionalidade brasileira mas a residir na Maia, começou a sentir os primeiros sintomas de hiperplasia benigna da próstata e encarou-os com naturalidade.

"Comecei há três meses a ter sintomas. Era sempre da parte da manhã: quando acordava, ia à casa de banho e tinha de ‘forçar’ a urina", lembra José Alexandre. A dificuldade em urinar fez o homem mencionar, por acaso, o facto à sua médica de família.

"Foi numa consulta que disse que não conseguia urinar de manhã. Não tinha dores nem nada", explica. O sintoma foi suficiente para que se pensasse que sofria de hiperplasia benigna da próstata. A confirmação chegou pouco depois. "A médica de família passou-me uns exames e pediu para vir ao Hospital de São João. Disse que era a próstata que estava grande", relata José. Na primeira consulta no hospital foi medicado e elucidado sobre a doença. "Tenho de tomar um medicamento durante seis meses. O médico explicou o que era e disse que era normal. Nunca tive problemas antes mas sabia que isto ia acontecer a todos", continua.

Agora a preocupação é seguir o tratamento, numa altura em que pensa regressar ao Brasil com a família. "Já pedi uma notificação para continuar o tratamento lá. O importante é ter descoberto a doença tempo", conclui este imigrante brasileiro. 

PERFIL

José Alexandre, Imigrante, actualmente desempregado, sentiu os primeiros sintomas há três meses. Já está a receber tratamento.

VÁRIOS MÉTODOS DE DIAGNÓSTICO

Para diagnosticar a HBP, o paciente tem de fazer na consulta uma história clínica e o exame físico. Depois faz análise ao sangue (PSA) e urina, ecografia vesico-prostática e estudo urodinâmico básico.

MEDICAR A CURTO E LONGO PRAZO

Há dois tipos de medicamentos: um que diminui o volume da próstata e cujos efeitos se sentem após seis meses ou um ano, e os ‘bloqueadores alfa’ que reduzem, ao fim de dias, a tensão que a próstata exerce sobre a uretra.

CIRURGIA COMO ÚLTIMA OPÇÃO

Caso os homens não consigam vigiar a doença nem fazer o tratamento farmacológico, opta-se pela cirurgia (endoscópica ou aberta). Só 10% dos homens precisam de cirurgia para tratar a retenção de urina.

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