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Correio da Manhã

Sociedade
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Doença velha mata

Passaram 127 anos desde que Robert Koch isolou o bacilo causador da tuberculose, mas ainda hoje a doença mata cerca de dois milhões de pessoas por ano.
18 de Março de 2009 às 00:30
Em Nova Iorque, em 1924, os navios funcionavam como escolas, em regime de internato, para crianças com tuberculose
Em Nova Iorque, em 1924, os navios funcionavam como escolas, em regime de internato, para crianças com tuberculose FOTO: Bettmann/Corbis

É uma das doenças mais antigas, com as primeiras referências históricas a surgirem em relatos de Hipócrates na Grécia. Também no antigo Egipto a tuberculose já matava, como demonstram lesões detectadas em múmias do século III a.C.

Entre os séculos XVII e XVIII a doença alastrou pelas cidades europeias e o conhecimento sobre a mesma cresceu. Mas foi no século XIX que a tuberculose se tornou um flagelo, atacando de forma endémica as classes mais pobres, em especial nas grandes cidades. Calcula-se que, por volta de 1850, uma em cada dez mortes no Hospital de S. José, em Lisboa, era provocada pela doença. E em Inglaterra o número subia para uma morte em cada quatro.

A certeza de que a doença é contagiosa surgiu por volta de 1880. Foram feitas campanhas para não se escarrar em público e os doentes foram remetidos para sanatórios. Em 1882, Koch identificou o bacilo Micobacterium tuberculosis, mas a descoberta teve reduzido impacto. O tratamento da doença continuou a assentar apenas em boa alimentação, repouso e isolamento dos doentes em sanatórios nas montanhas para usufruírem de ar puro. Em 1921, Calmette e Guérin descobriram a vacina BCG, que ainda hoje é usada, mas na altura os efeitos foram reduzidos. Mas em 1944 Waksman descobriu a estreptomicina, primeiro antibiótico eficaz contra a doença, que revolucionou o tratamento e permitiu a redução progressiva do número de mortos por tuberculose.

Até aos anos 80 a doença decresceu – muitos acreditaram mesmo na sua erradicação total – mas acabou por ressurgir, aliada à sida, ao consumo de drogas duras e ao aparecimento de variantes do bacilo. Actualmente, a situação é dramática em especial nos países pobres.

"OPÇÃO CERTA É VACINAÇÃO": Meliço Silvestre, Especialista em Infecciologia

CM – Como se explica que o tratamento da tuberculose pouco tenha evoluído?

Meliço Silvestre – Era uma doença de classes desfavorecidas e por isso não se apostou em novos medicamentos. Com o aparecimento da sida houve um acelerar das duas doenças.

– Como está a situação portuguesa?

– Estamos em último lugar na Europa. A cobertura sanitária e a qualidade vacinal são boas, mas há imigrantes ilegais que não vão aos centros de saúde, para não serem apanhados, e que se passeiam pela sociedade infectando as pessoas. O Estado tem de encontrar solução.

– Qual o caminho a seguir?

– Não há dinheiro para tratar estas epidemias. A opção certa é apostar na vacinação e na melhoria das condições sanitárias.

FIGURAS DA ARTE FORAM VÍTIMAS

Figuras ilustres de diversas áreas da arte morreram com tuberculose. Em Portugal, a doença vitimou escritores como Júlio Dinis e Cesário Verde. Mas entre as vítimas contam-se também os compositores Mozart, Schubert e Chopin. Na literatura, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, Robert L. Stevenson, as irmãs Brönte, Anton Tchekhov e George Orwell também morreram da tísica, doença que foi fatal para os pintores Gauguin ou Modigliani.

CRONOLOGIA

400 a.C.

Na Grécia antiga, Hipócrates, considerado o pai da Medicina, faz uma descrição pormenorizada da doença e até alerta para o facto de ser contagiosa.

SÉC. XVII/XIX

A tuberculose alastra pela Europa, em especial no século XIX, tornando-se endémica entre as classes mais desfavorecidas. Mata 500 em cada 100 mil habitantes.

1882

O patologista alemão Robert Koch descobre o bacilo causador da tuberculose. Ganha o Nobel da Medicina em 1905, pelas investigações sobre a doença.

1950

Generalização do tratamento com antibióticos e melhorias na saúde pública reduz mortes na Europa para 50 por cada 100 mil habitantes, face aos 500 por 100 mil de 1850.

1993

O ressurgimento da tuberculose, associada à sida, leva a Organização Mundial da Saúde a declarar a doença uma emergência a nível mundial.

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