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Correio da Manhã

Sociedade
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Doente acamado enviado para casa

"Não sei o que hei-de fazer à minha vida. Isto não se faz. Não se manda uma pessoa assim doente para casa." O desabafo de Diamantina Cabrita, 75 anos, sai misturado com lágrimas, por ter em casa o marido, António Cabrita, 77 anos, acamado, sem mobilidade e com necessidade de cuidados médicos.
12 de Setembro de 2010 às 00:30
Diamantina queria que o seu marido, acamado, estivesse numa unidade de saúde com fisioterapia
Diamantina queria que o seu marido, acamado, estivesse numa unidade de saúde com fisioterapia FOTO: Luís Silva Pereira

No Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Portimão, a decisão de dar alta ao doente é justificada com a inexistência de camas de longa duração. Até agora, existem 183 camas desta tipologia em todo o Algarve, mas a Administração Regional de Saúde quer aumentar essa oferta para 400 até 2012.

António Cabrita é diabético e nos últimos quatro anos teve diversas hospitalizações devido a acidentes vasculares cerebrais. Em Maio sofreu uma queda no Centro de Dia de São Marcos da Serra e partiu o fémur. Foi operado no Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão, e enviado depois para convalescer no Hospital da Santa Casa da Misericórdia na cidade. Foi mandado para casa uma semana depois de expirar o prazo de 30 dias para ocupação de camas de convalescença. "Estava com febre e não podia ir buscá-lo. No hospital chamaram uma ambulância e mandaram-no para casa. Agora querem que eu pague a ambulância", lamenta Diamantina. "A família gostaria que ele ficasse, mas não há vagas. Temos um terço dos doentes à espera de longa duração. Candidatámo-nos a essas camas e não fomos aceites", justifica o vice-provedor, João Amado.

Diamantina teve de colocar uma cama de hospital no quarto da casa do casal, em São Marcos da Serra. Precisa de chamar ajuda sempre que tem de dar banho ao marido, porque não pode com ele ao colo. E tem recebido a visita de enfermeiras do Centro de Saúde de Silves, duas vezes por semana, para mudar o penso à ferida da operação ao fémur, que ainda não cicatrizou. "Obviamente não é um doente reabilitado", admite João Amado. Em São Marcos da Serra, Diamantina passa noites em claro, a acudir aos gemidos do marido. E espera soluções, que não existem.

REGIÃO COM MAIS CAMAS NA REDE DOS CONTINUADOS

De acordo com a ARS, o Algarve é a região do País com mais camas de cuidados continuados integrados; 431 desde 2009. Em 2005 tinha 15. As camas desta rede dividem-se em convalescença, média duração e longa duração. Deste último tipo existem 183, também desde 2009,e o compromisso de chegar às 400 daqui a dois anos. Há três meses foram aprovadas mais 100 camas, a inaugurar em 2012, para Estoi (41), Aljezur (29) e Monchique (30). Estão em instalação 33 em Olhão, 30 em Tavira, 33 no Azinhal e 21 em Loulé, estas a inaugurar este ano.

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