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Dores nas costas custam milhões

Um milhão e quatrocentos mil portugueses sofrem actualmente de dor moderada a grave. A principal causa de dor crónica é a dor de costas (lombalgia), cujos tratamentos custam ao País cerca de 997 milhões de euros por ano. Esta verba inclui os custos directos e os indirectos, como as faltas ao trabalho e as reformas antecipadas.
5 de Outubro de 2008 às 00:30
Dores nas costas  custam  milhões
Dores nas costas custam milhões FOTO: João Miguel Rodrigues

Estes números merecem uma reflexão no Dia Mundial Contra a Dor, que se assinala a 11 de Outubro, e justificam a criação de Unidades de Dor, de diferentes níveis de assistência, nos hospitais. A medida está prevista no Programa Nacional de Luta Contra a Dor Crónica e é defendida pelos especialistas; no entanto, estes dizem que existem em número insuficiente. Um dos hospitais que dispõe não de uma unidade, mas de uma Consulta da Dor, é o Hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, a funcionar desde 1998.

O número de doentes ali tratados para o controlo da dor tem vindo a crescertodosos anos, a um ritmo médio de cem por ano. Hoje, são ali assistidos cerca de 800 doentes por ano. Alguns sofrem de cancro, outros padecem de dores musculares (músculo-esquelético) ou dores nas articulações (osteoarticulares).

HÁ FALTA DE MEIOS

A médica anestesista Margarida Frias, coordenadorada Consulta da Dor no Hospital do Barreiro, reconhece ao CM a insuficiência de meios face à quantidade de doentes: "A consulta funciona um dia por semana, mas devíamos ter, pelo menos, dois dias."

A maioria dos doentes tem entre 50 e 60 anos, mas, segundo Margarida Frias, já "começam a surgir doentes mais jovens, com menos de 40 anos e alguns, poucos, com 18 anos a queixarem-se de lombalgias."

O investigador dos mecanismos da neurobiologia da dor e coordenador da Comissão Nacional de Controlo da Dor, Manuel Castro Lopes, revela conclusões de um estudo da Faculdade de Medicina do Porto: 31 por cento dos portugueses com mais de 18 anos sente dores; 14,3 por cento – um milhão e 400 mil portugueses – queixa-se de dores moderadas a grave.

MÚSICO AO VIVO NO HOSPITAL

José Oliveira, 29 anos, e Ana Cunha, de 22, entretêm doentes com música, no âmbito do projecto da Associação Música nos Hospitais. Além de actuarem para os doentes do Barreiro também o fazem para os de Setúbal. José é músico profissional, mas Ana encontrou nesta actividade uma saída para a falta de emprego como enfermeira. "Terminei a licenciatura e estou desempregada, não consegui ainda uma colocação."

ENFERMEIROS SÃO PSICÓLOGOS

O desempenho da equipa de enfermagem da Consulta da Dor do Hospital doBarreiro é tido por médicos e doentes como "importantíssimo". A enfermeira-chefe Céu Parreira (na foto à direita, ao lado da enfermeira Cristina Santos) reconhece ao CM que a função do enfermeiro vai para além do desempenho profissional. "A enfermeira faz muito o papel de psicólogo, ouvimos as pessoas. Os doentes precisam muito de serem ouvidos." Céu Parreira diz que, por norma, os doentes têm um registo de 8,5 na escala da dor (vai de 1 a 10), a qual é considerada o 5º sinal vital. n

DISCURSO DIRECTO

"HÁ DESVIO DE RECURSOS", Manuel Castro Lopes -Investigador

Correio da Manhã – Há Unidades da Dor suficientes?

Manuel Castro Lopes – Não. Quando o Plano Nacional de Luta Contra a Dor foi aprovado, em 2001, existiam 35 unidades. Hoje, existem 53 unidades diferenciadas em vários hospitais, o que representa um aumento de 60 por cento, mas não chegam.

– Porque não criam mais?

– As administrações hospitalares não estão sensibilizadas para este tratamento e a dor crónica é menosprezada.

– Sensibilidade ou interesse?

– As Unidades da Dor funcionam com anestesistas e há uma grande pressão para os blocos operatórios.

– Reduzir as listas de espera em cirurgia agravou o caso?

– Sem dúvida, desviam-se os recursos para a cirurgia.

O MEU CASO: "É DIFÍCIL LUTAR CONTRA A DOENÇA"

Maria Flausina Mineiro é doente oncológica. O cancro da mama foi diagnosticado pelos médicos já lá vão 21 anos. Há cinco começou a fazer quimioterapia no Hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro. Conhece, por isso, o Hospital de Dia quase como a sua casa. A Consulta da Dor funciona num gabinete médico ao lado. "A dona Flausina animava os outros doentes quando estava a fazer o tratamento da quimioterapia, que dura várias horas, por vezes cinco ou seis horas por dia. Agora está um pouco mais abatida, mais triste, mas mesmo assim deixa transparecer a sua força interior", diz a enfermeira-chefe Céu Parreira. A filha da doente, Susana Mineiro, 30 anos, reconhece que, às vezes, as forças vão abaixo. "É duro vermos a nossa mãe a sofrer tanto e não podermos fazer nada, sentirmo-nos impotentes para a ajudar."

Flausina Mineiro não passa sem doses fortes de medicamentos que lhe consigam atenuar as dores intensas que sente. Hoje, as forças e a tenacidade da sua luta contra a doença estão um pouco mais esbatidas, mas, mesmo assim, não lhe tira o sorriso da cara. "Sinto dores muito fortes, do lado do pulmão direito, desde há cinco ou seis anos. Tem sido muito difícil lutar contra a doença e as dores." Flausina Mineiro usa 24 horas por dia um infusor – instrumento através do qual lhe é administrado o medicamento anestésico local para alívio das dores, com duração de sete dias, e é introduzido no pulmão. E ainda toma outros medicamentos por via oral.

PERFIL

Maria Flausina Santana Mineiro, 65 anos, é viúva e tem dois filhos. Nunca se empregou, antes dedicou toda a sua vida a cuidar da família, marido e filhos. Vive no Barreiro e é considerada por quem a conhece como uma mulher de espírito forte, determinada e optimista. Vê a vida pelo lado positivo, apesar da doença.

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