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Correio da Manhã

Sociedade
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Em tempos de pandemia, como é nascer em Portugal?

As grávidas no nosso país nunca estiveram tão sozinhas e receosas como agora. Recomendações da OMS e DGS divergem.
Marta Ferreira 27 de Abril de 2020 às 19:15
Grávida
Grávida FOTO: Getty Images
Nunca em Portugal, as grávidas estiveram tão sozinhas como agora. A pandemia de coronavírus veio tirar o foco de qualquer momento das nossas vidas, seja ele o nascimento de uma criança ou qualquer outra situação médica. 

As gestações mudaram, os partos também e as primeiras horas da vida de uma criança tornaram-se solitárias. O que outrora era um momento partilhado entre a mãe e o pai da criança, agora é um momento tenso, de medo e preocupação. 

A Organização Mundial da Saúde emitiu uma série de recomendações para as gestantes, o mesmo fez a Direção-Geral da Saúde numa diretiva com 48 pontos. Porém, as indicações da OMS divergem da DGS que opta por diretivas mais rigorosas e preventivas. 

A OMS garante que as grávidas não são doentes que estejam mais em risco do que qualquer outro membro da sociedade, mas ressalva que devido à mudança física e do sistema imunitário que uma gravidez envolve, as gestantes estão mais em risco de desenvolverem infeções respiratórias o que leva a que, quando há sintomas de coronavírus, as grávidas tenham prioridade uma vez que está em risco a gestante e o bebé ainda por nascer. O mesmo defende a DGS. Em tudo o que envolve o período de gestação, tanto a OMS quanto a DGS parecem convergir, mas, na hora do parto começam a surgir as diferenças. 

Em Portugal, as grávidas têm de passar pelo parto sozinhas e sem visitas até que os testes tanto à mulher como ao bebé sejam negativos. Também o contacto entre mãe e filho e a consequente amamentação acontece após serem conhecidos os resultados ao teste à covid-19, segundo as recomendações da DGS que salvaguardam ainda que tudo isto deve ser articulado entre o clínico e a mulher.  

Por outro lado, a OMS defende o contrário. A Organização Mundial da Saúde defende que as mulheres devem ter companhia à sua escolha durante o parto, devem poder amamentar e ter contacto pele a pele com o recém-nascido desde que cumpram as devidas regras como usar máscara, lavar as mãos antes e depois de tocar no bebé e ter todas as superfícies à sua volta desinfetadas. 

No Hospital Santa Maria, por exemplo, as grávidas assintomáticas podem dirigir-se para a obstetrícia normal e as que apresentam sintomas são encaminhas para um departamento específico e são tratadas como um caso de covid-19 até que sejam conhecidos os resultados. O leite materno é descartado, como medida preventiva, até que o resultado da mãe seja conhecido e tenha dado negativo para o coronavírus. 

Partos às 39 semanas sem indicação clínica
A Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto alega numa carta dirigida à Direção-Geral da Saúde que estão a ser efetuadas induções de trabalho de parto em grávidas sem que haja indicação clínica para o efeito. 

Alegam ainda que "há inúmeras instituições de saúde em que está a ser imposto às grávidas a realização do teste do coronavírus às 39 semanas de gestação e, caso seja positivo, estas são encaminhadas para outro hospital". Caso o teste seja negativo, "é proposta a indução do parto para o dia seguinte, mesmo sem outras razões médicas que justifiquem a antecipação do parto".

Esta prática não é recomendada pela Organização Mundial de Saúde, que afirma que a gestante deve poder escolher como quer proceder ao parto. 

A diretora-geral da Saúde recusou na passada segunda-feira que exista qualquer recomendação para a indução de parto ou cesariana sem indicação clínica durante a pandemia de covid-19, notando que a decisão deve ser articulada entre os clínicos e as mães.

Graça Freitas recusou estar em causa qualquer recomendação da DGS para maior segurança dos partos em período de pandemia provocada pelo novo coronavírus.

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