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Correio da Manhã

Sociedade
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Ensino "não aguenta mais cortes" diz antiga responsável

Ana Maria Bettencourt, ex-presidente do Conselho Nacional de Educação, traça quadro negro e critica Nuno Crato.
5 de Outubro de 2013 às 20:21
Ana Maria Bettencourt, ex-presidente do Conselho Nacional de Educação
Ana Maria Bettencourt, ex-presidente do Conselho Nacional de Educação FOTO: Vítor N. Garcia

A ex-presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Ana Maria Bettencourt, traçou este sábado um quadro negro do setor e garantiu que o ensino “não aguenta mais cortes”, numa sessão organizada pela Fenprof na Escola D. Pedro V, em Lisboa, para assinalar o Dia Mundial do Professor. “Restringir a educação a disciplinas ditas essenciais é um grande erro, como defende a Unesco. E estou preocupada com o ensino vocacional, que está a ser instalado de forma pouco clara. A orientação compulsiva para este ensino de alunos que reprovam, como sucede na Alemanha, é um atentado grave à escola pública”, disse a antiga deputada do PS, que recentemente deixou a presidência do CNE, tendo sido sucedida pelo ex-ministro da Educação David Justino.

Ana Maria Bettencourt considerou ainda “um problema muito grave a educação de adultos estar paralisada”. “Há quem pense que o melhor é deixar estar assim porque qualquer dia vão morrer”, afirmou, lembrando que “Portugal tem 3 milhões e meio de pessoas que só têm o 4.º ano”.

A ex-líder do CNE - órgão independente e com funções consultivas, cujo presidente é eleito pelo Parlamento - considerou que a evolução que estava em curso no ensino básico, secundário e superior teve uma inversão. “O compromisso de em 2020 ter 40% da população, entre os 30 e 34 anos, no ensino superior está comprometido com esta quebra de candidatos. Não é a demografia que explica esta quebra mas as dificuldades financeiras das famílias, os exames mais difíceis e a inaceitável instabilidade no nível de exigência das provas. Estávamos a avançar nas qualificações e agora parámos e o orçamento da educação desceu para níveis de 2001”, afirmou, frisando depois aos jornalistas que a educação “não aguenta mais cortes”.

Antes, num discurso emotivo, uma professora desempregada, Michele Domingues, falou em seu nome e de outros três colegas na mesma condição: “Se eu soubesse tinha escolhido outra profissão, não compensa ser professor. Sinto revolta contra a classe política em geral. Se eu fosse o ministro Nuno Crato preocupava-me porque nós vamos até onde for preciso, não temos nada a perder.”

Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, prometeu “uma intervenção mais forte e dinâmica”. “Não nos podemos limitar a cavar trincheiras e nelas permanecer”, afirmou. Nogueira lembrou um recente estudo europeu sobre a imagem dos professores e do ensino: “Num país em que os cidadãos revelam apenas uma confiança moderada no sistema educativo, aos professores dão nota muito positiva”, afirmou. O dirigente rejeitou ainda a “necessidade de criar uma ordem dos professores ou organismo semelhante que se traduza numa nova tutela”. “Os sindicatos partem de uma visão positiva para olhar a profissão, enquanto as ordens partem de uma visão negativa, entendendo que é preciso punir e separar o trigo do joio”, disse, exigindo mais uma vez a demissão do Governo.

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