Foi pedido à vítima para “mostrar” como foi o gesto do seu agressor e perguntado se era frequente esta masturbar-se e ter relações sexuais.
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A comissão de instrução do Grupo Vita, responsável pelas entrevistas às vítimas no processo de atribuição de compensações financeiras pelos abusos sexuais na Igreja Católica, pediu a uma vítima para esta “mostrar” como foi o gesto do abusador, revelou a revista ‘Sábado’. Na entrevista conduzida por Rute Agulhas, psicóloga e coordenadora do Grupo Vita, a vítima foi também questionada se era frequente masturbar-se e se já tinha tido relações sexuais.
As perguntas, consideradas “inadequadas” pela vítima, contrariam o que o Grupo Vita, criado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) em 2023, garantiu que sempre acontecia - em entrevista à Rádio Renascença, em setembro do ano passado, Rute Agulhas assegurou que “nunca foi perguntado a ninguém se doeu (...) [e que] nunca foi pedido a nenhuma vítima que mostrasse como foi o toque abusivo, porque isso seria repeti-lo e seria manifestamente desadequado”.
O encontro com ‘José’ (nome fictício), abusado sexualmente por um padre - que também era seu familiar - quando tinha apenas 16 anos (ver notas de rodapé), decorreu em fevereiro de 2025, numa autarquia de uma cidade do Interior do País, e é descrita pelo próprio como uma “pura inquisição”. A conversa de duas horas foi conduzida pela própria Rute Agulhas e contou com a presença de uma advogada, em representação da congregação católica a que está ligado o padre apontado como agressor, o que deixou ‘José’ “muito espantado” e “até em choque”, como confessou . Ao longo da conversa, Rute Agulhas pediu a ‘José’ para este “clarificar”, “mostrar ou explicar” o que significava a expressão “punha a mão (...) e aproximava-se da virilha”, dita pela vítima quando descreveu os abusos. ‘José’ ainda hoje “não se conforma” com “o ambiente criado” [durante a reunião], “a postura inadequada” [das entrevistadoras] e “o autêntico interrogatório que se seguiu”. Condições que, acusa, “comprovam” que as entrevistas [do Grupo Vita], neste processo de reparação, “têm sido por vezes impróprias e abusivas”.
Rute Agulhas foi confrontada com estas acusações, mas a psicóloga não comentou. “São críticas que já surgiram no passado (...) [e que] já clarifiquei”, respondeu, por escrito.
Apesar de conhecer o regulamento da comissão, e de ter assinado um termo de consentimento informado, ‘José’ diz “ter sentido desconforto, desgaste e insatisfação” com as questões colocadas, incluindo pormenores dos abusos (Rute Agulhas chegou a questionar “onde é que ele [o agressor] pôs exatamente a mão”), explicações sobre as práticas sexuais (“mas alguma vez teve um relacionamento sexual? (...) experimentou? (...) é muito frequente que as pessoas se masturbem e se toquem, se alguma vez isso acontece?”) ou informações sobre o contexto familiar e profissional do entrevistado.
E TAMBÉM
Vítimas acusam “revitimização”
António Grosso, porta-voz da associação Coração Silenciado, que representa as vítimas, denuncia o que entende ser a “revitimização” (o sofrimento adicional de uma vítima que já sofreu um trauma anterior) neste processo. “Garantiram que não teríamos de voltar a reviver aquilo outra vez e não é nada disso que se passa”, diz.
Padre denunciado
Os abusos a ‘José’ terão ocorrido quando este tinha apenas 16 anos, cometidos por um padre, seu familiar, que lhe dava explicações de Português em casa.
CEP já definiu valores
A Igreja Católica já definiu as compensações financeiras a pagar às vítimas de abuso se- xual e as propostas serão agora apresentadas aos queixosos. A CEP tinha prometido fechar o dossiê em 2024, mas o mesmo conheceu sucessivos adiamentos (o conselho permanente da CEP pediu, no início deste ano, “desculpa” pelos atrasos).
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