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Correio da Manhã

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Especialistas sem lugar nos hospitais

A chegada do frio e das quadras festivas é sinónimo de alegria e bem-estar para a maioria dos portugueses. Para outros, cerca de 25%, representa maiores cuidados com a saúde, já que a época é propícia ao agravamento dos sintomas característicos das alergias de Inverno.
27 de Novembro de 2011 às 01:00
O uso de roupa mais grossa também pode desencadear reacções alérgicas
O uso de roupa mais grossa também pode desencadear reacções alérgicas FOTO: Maria João Marques

"Nesta altura do ano, as alergias mais frequentes são as alimentares, respiratórias, cutâneas e as alergias aos ácaros", revela João Fonseca, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.

"No Natal há um agravamento das alergias aos ácaros. Com a chegada do frio, as pessoas voltam a usar as roupas que estavam guardadas, vão aos sótãos, aos arrumos buscar os arranjos de Natal, o que leva à ocorrência de reacções intensas, quer ao nível respiratório, como cutâneo e ocular", revela o professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Os excessos alimentares, a par da ingestão de pratos típicos da época e do uso de roupa mais grossa, podem desencadear reacções alérgicas que, para cerca de um milhão e meio de portugueses, vão muito além da simples comichão e atingem proporções verdadeiramente graves, com a ocorrência de reacções anafiláticas. Nestes casos, o uso de medicação acaba por se prolongar pela vida fora, razão pela qual o acompanhamento médico especializado é fundamental para a qualidade de vida do doente.

Porém, a oferta de consultas da especialidade não é homogénea a nível nacional e nem sempre é ministrada por médicos formados em Imunoalergologia.

"Além da má distribuição das consultas de Alergologia pelo País, em alguns hospitais do Serviço Nacional de Saúde há consultas que são feitas por outros profissionais de saúde que não os alergologistas. Defrauda-se as expectativas do doente e do médico de família que o referencia", revela o especialista João Fonseca, que não deixa de mostrar o seu espanto com a situação.

"Nos últimos anos, os especialistas recém-formados têm tido dificuldades em encontrar lugares nos hospitais, o que é um pouco difícil de perceber, tendo em conta que existem consultas da especialidade que estão a ser desenvolvidas por outros profissionais de saúde", conclui o responsável.

GUILHERME JÁ VIVE SEM LIMITAÇÕES

Os primeiros problemas respiratórios do Guilherme surgiram aos sete meses. O que inicialmente era visto pelos médicos com uma infecção respiratória, acabou por evoluir para um diagnóstico de asma desencadeada por reacções alérgicas a várias substâncias, entre as quais pólens, pêlos de animais e, principalmente, ácaros.

"O Guilherme começou a ter problemas respiratórios, com expectoração, febre e falta de ar, desde muito cedo, mas foi aos três anos que os médicos descobriram que eram as alergias que lhe provocavam a asma", revela Alexandra Domingos, 39 anos, mãe de Guilherme.

Acompanhado desde os quatro anos pela consulta de Imunoalergologia no Hospital de São João, no Porto, onde vai duas vezes por ano, Guilherme, hoje com 11 anos, aprendeu a conviver com as limitações impostas pelas alergias e a gerir a medicação, cuja factura ascende a 79 euros mensais. Tem apenas de ter alguns cuidados com a roupa, que tem de ser de algodão, e com os sítios que frequenta, para não desencadear uma reacção alérgica. "Com a chegada do frio e da humidade, ele tem mais dificuldade em respirar", recorda Alexandra Domingos. n

"ALERGIA É O MOTOR DAS DOENÇAS": João Fonseca, Soc. Port. Alergologia e Imunologia Clínica

CM – Que sintomas denunciam uma reacção alérgica?

João Fonseca – Os sintomas surgem quando há activação do sistema imunológico. Os mais frequentes são olhos vermelhos, espirros, garganta com comichão, tosse, pigarro, pieira, falta de ar e dificuldade em respirar. Se a inflamação estiver controlada, os sintomas são ligeiros.

– Qual o impacto da alergia no nosso organismo?

– Podem afectar qualquer um dos órgãos de interface, desde a pele, às mucosas nasais, da boca ao sistema digestivo. Se for grave, pode provocar queda de tensão, desmaios e anafilaxias, ou seja, alterações em todo o corpo, inclusive no sistema cardiovascular.

– Que doenças são desencadeadas pelas alergias?

– A alergia é o motor de várias doenças, entre elas a dermatite, conjuntivite, rinite e asma.

SAÚDE DOENÇAS RESPIRATÓRIAS ALERGIAS FRIO
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