"Ele estava à espera de fígado aqui e em Espanha. Em Agosto foi chamado para Madrid, porque deixaram de fazer transplantes em Portugal. Espero que a morte do meu filho sirva de exemplo". A declaração, ainda emocionada, é de Paula Gonçalves, dez dias depois de ter perdido o filho Tiago, de dois anos.
O menino, que nasceu com atresia das vias biliares, uma doença rara que pode conduzir à cirrose, morreu na véspera do seu segundo aniversário, no Centro de La Paz, em Madrid, Espanha, enquanto esperava por um transplante de fígado. A criança esteve prestes a ser transplantada em Portugal, antes da saída do único médico que fazia estas cirurgias no centro de Coimbra (ver texto secundário).
Paula Gonçalves, residente em Vila Verde, no distrito de Braga, recorda o filho como um menino "alegre", apesar dos dias longos em várias unidades hospitalares. "Foram dois anos virados do avesso. Eu passava toda a vida no hospital. O meu marido não podia trabalhar ou trabalhava longe", recorda a mulher.
Tiago nasceu com uma doença que afecta uma criança em 20 mil. Os sintomas de icterícia, fezes pálidas e urina escura permitiram que a doença fosse detectada de imediato. Aos dois meses teve de ser operado no hospital de São João, no Porto. "Cortaram o intestino e uniram-no ao fígado. O estado de saúde estabilizou, mas um ano depois, o fígado piorou e a única solução era o transplante", explicou.
Apesar de ser seguido no hospital de Braga, Tiago passou também a ter consultas no hospital pediátrico de Coimbra, onde funcionava até Julho o único centro de transplantes em Portugal. Em Agosto do ano passado, ficou com uma infecção nos pulmões e foi colocado em primeiro lugar na lista de espera. "Em Outubro apareceu dador compatível, mas o fígado não era bom. Em Julho deste ano, ficou em lista de espera em Espanha. Faleceu a 19 de Novembro, um dia antes de fazer dois anos", contou a mãe.
Por ser a acompanhante do doente, Paula contou com a ajuda da Segurança Social para pagar as três viagens a Espanha: "O meu outro filho, de 11 anos, nunca visitou o Tiago. O meu marido tinha de pagar as viagens. Uma vez teve 2 mil euros de despesa". Cientes do fim inevitável, Paula e o marido assistiram à morte do filho. "Se houvesse cá um centro de transplantes, tinha sempre o apoio da família", referiu.
CIRURGIÃO SÓ VOLTA COM GARANTIA DE QUALIDADE
Emanuel Furtado, o único cirurgião que em Portugal faz transplantes hepáticos pediátricos, abandonou os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) há quase um ano por considerar que o programa estava "em risco em termos de qualidade". Nessa altura os HUC realizavam entre 12 a 15 transplantes hepáticos em crianças por ano. Ontem, ao CM, não afastou a hipótese de regressar, mas exige garantias de "qualidade e perspectivas de futuro".
Apesar de estar a trabalhar actualmente no IPO de Coimbra, Emanuel Furtado diz que, "tendo uma competência especial nessa área, seria inaceitável dizer que não daria a sua colaboração". "Não ponho essa hipótese de lado", refere, mas adianta: "Nunca aceitaria colaborar num projecto que não tivesse como objectivo começar naquele patamar de qualidade em que ficámos".
Desde que o programa foi suspenso as crianças passaram a ser encaminhadas para o Centro de La Paz, em Madrid, que já transplantou com sucesso dois portugueses. "Das escolhas possíveis sempre considerei que Espanha seria a primeira", refere ao aludir aos "bons níveis de resposta". Acrescenta, aliás, que o centro de Madrid é "um dos bons a nível mundial".
PERFIL
Emanuel Furtado
Filho de Linhares Furtado – responsável pela criação da equipa de transplantes hepáticos em Coimbra –, Emanuel Furtado é o único cirurgião em Portugal de transplantes hepáticos pediátricos. Trabalhou nos HUC e agora está no Instituto Português de Oncologia.
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