Apesar de Portugal ter mais médicos por mil habitante do que a média europeia, números não refletem quantos estão efetivamente em exercício nem onde trabalham.
Os estudantes de Medicina alertaram esta sexta-feira que políticas de saúde "altamente sensíveis" às legislaturas dificultam a resolução de problemas estruturais do SNS, como as vagas por preencher no internato médico, refletindo falhas no planeamento e na atratividade da carreira.
Em entrevista à Lusa, a nova presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), Maria Fontão, afirmou que, nos últimos anos, se tem verificado uma inversão de preenchimento das vagas do internato médico.
"Se há uns anos, e não estamos a falar de anos muito distantes, as vagas eram frequentemente poucas para o número de médicos recém-formados", agora tendem a sobrar, sobretudo nas especialidades de Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna, as que enfrentam "problemas mais graves" no preenchimento.
A dirigente classificou o problema como "muito multifatorial", que precisa de ser "melhor compreendido", envolvendo fatores relacionados com a formação, planeamento dos recursos humanos e atratividade da carreira médica.
Uma das principais dificuldades prende-se com a falta de dados objetivos sobre a forma como os médicos exercem a sua profissão.
Apesar de Portugal ter mais médicos por mil habitante do que a média europeia, segundo dados da OCDE, esses números não refletem quantos estão efetivamente em exercício nem onde trabalham.
"É difícil conseguirmos avançar com uma análise concreta e com soluções concretas quando nós próprios não conseguimos entender a extensão do problema", sublinhou.
Maria Fontão apontou ainda a coesão territorial como um fator estrutural relevante, classificando-a como "um problema muito complexo", que afeta a escolha de vagas em regiões do interior, mas também noutras zonas críticas, como Lisboa e Vale do Tejo, embora por razões distintas.
Alertou ainda que, mesmo os serviços que têm um preenchimento de vagas satisfatório, às vezes acaba por ser um problema, não porque não existam especialistas para os formar, mas porque a sobrecarga que enfrentam condiciona o tempo que dedicam à formação dos internos.
"É um problema que nos deve alarmar, especialmente porque, no limite, vai condicionar a qualidade dos cuidados de saúde se tivermos médicos menos preparados para exercer a sua especialidade", alertou.
Para a dirigente associativa, sem uma compreensão adequada da distribuição dos médicos no sistema e dos fluxos de imigração, "é difícil ter políticas de saúde devidamente fundamentadas e passíveis de acompanhamento".
"São problemas profundamente estruturais", sendo por isso "muito difícil avançar com soluções concretas" e resolvê-los de forma imediata: "São problemas que não são desta legislatura, nem da anterior, nem da anterior (...). Vão-se construindo e agravando uns em cima dos outros e depois, em certas alturas, acabam por resultar em situações mais críticas".
A ANEM defende políticas de recursos humanos sustentáveis e duradouras e apoia a proposta do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de um pacto para a saúde, capaz de alinhar Governo e partidos e garantir políticas de longo prazo.
"Enquanto tivermos políticas de saúde altamente sensíveis às legislaturas e que mudam consistentemente de legislatura para legislatura, é difícil resolver problemas, porque parece que estamos constantemente em fase experimental de políticas e isso não traz benefício ao longo prazo para o sistema de saúde e particularmente para os serviços", alertou.
Para tentar compreender melhor os fatores que influenciam a escolha de especialidade, a ANEM propôs recentemente ao Governo, a realização de um estudo semelhante ao "AIM Study", desenvolvido no Reino Unido.
O estudo permitirá analisar as perspetivas dos estudantes, perceber se consideram carreiras alternativas à prática clínica e quais os fatores que afetam a escolha de especialidade, servindo também como base para o planeamento futuro dos recursos humanos, adiantou.
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