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Correio da Manhã

Sociedade
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Estudantes portugueses trocam praia e concertos por um mês em aldeia cabo-verdiana

São voluntários e durante um mês ficam praticamente incontactáveis.
Lusa 13 de Agosto de 2019 às 15:57
Bandeira de Cabo Verde
Bandeira de Cabo Verde FOTO: Getty Images
Seis estudantes da Universidade do Minho trocaram a praia e os festivais de música pela pequena aldeia de Rui Vaz, no interior da ilha cabo-verdiana de Santiago, onde contam realizar, até setembro, mais de 700 rastreios de saúde.

Os estudantes universitários, oriundos dos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto e com idades entre os 20 e os 23 anos, estudam em cursos como Psicologia, Filosofia, Comunicação Social, Gestão ou Informática.

São voluntários, ao abrigo do programa Sementes, da Pastoral Universitária de Braga, e durante um mês ficam praticamente incontactáveis. Estão alojados nas mesmas casas dos outros moradores da aldeia e por ali não há acesso à Internet, redes sociais ou sequer telemóvel.

"Queremos viver a experiência intensamente aqui. É um desapego, porque enquanto jovens é cada vez mais difícil. Estamos cada vez mais dependentes dos telemóveis", explicou, em declarações à Lusa, na aldeia cabo-verdiana, Maria Amorim, de 20 anos, aluna do terceiro ano do curso de Psicologia da Universidade do Minho.

"Este é o nosso mês de férias, mas optamos por fazer um período diferente de descanso", assumiu.

Já Rita Machado está no terceiro ano de Filosofia e decidiu deixar para trás o habitual programa de férias para qualquer jovem em Portugal, assegurando que não há saudades de Internet, da praia ou dos festivais de música em que os amigos marcam presença em Portugal por estes dias.

"Acredito que eles fiquem ricos com os concertos, mas nós ficamos muito mais ricos com isto", afirmou.

A estudante acrescentou que o telemóvel ficou em casa e o contacto com a família só é feito duas vezes por semana.

"Não estaríamos a dar o nosso máximo. E estamos numa população que não vive para os telemóveis, como a nossa sociedade. Temos de nos adaptar à sociedade em que estamos. E não vimos para aqui com uma coisa que também não é saudável", notou.

Na aldeia de Cabo Verde, a cerca de 20 quilómetros da cidade da Praia, fortemente marcada pela seca que todo o arquipélago vive há mais de dois anos, este grupo de estudantes dá continuidade ao projeto Sementes, criado há cinco anos.

Entre junho e agosto, Cabo Verde recebe quatro grupos deste projeto, num total de 20 estudantes da Universidade do Minho.

"Temos uma preparação, ao longo do ano, durante nove meses, e depois somos distribuídos. Neste momento estamos a trabalhar para projetos em Cabo Verde e na Guiné-Bissau", contou Maria Amorim, estudante de Viana do Castelo que repete a experiência de 2018, agora à frente do grupo.

Chegaram a Rui Vaz a 07 de agosto e têm regresso a Portugal marcado para 06 de setembro. Outros dois grupos de estudantes estão nos concelhos de Assomada e São Salvador do Mundo, também em Santiago.

"O nosso intuito principal é vivermos na comunidade. É uma troca mútua de aprendizagens, de culturas. Trazemos atividades planeadas, queremos trabalhar com toda a gente", disse Maria Amorim.

Na aldeia de Rui Vaz já estão a trabalhar diretamente com crianças e jovens, no apoio a tarefas de educação, mas também com adultos e idosos acamados, em matéria de saúde. Mas garantem que querem aprender também com a população, por ser um processo de convivência, com dois sentidos.

Todos os sábados, em conjunto com a técnica da unidade sanitária da aldeia, vão ainda realizar rastreios para controlo de glicemia e da tensão.

Tal como os restantes elementos, Cláudia Vilaça, do terceiro ano do curso de Gestão, teve apenas formação básica na área da saúde para realizar os rastreios, que se iniciam no sábado naquela aldeia: "Não trouxemos medicação específica, o objetivo é mais alertá-las e dar soluções naturais para inverter essa situação".

O material que recolheram para a viagem é suficiente para mais de 700 rastreios.

"A ideia é fazermos o máximo que pudermos, o que não utilizarmos deixaremos com a pessoa responsável para continuar a aproveitar o material que angariámos", assumiu a jovem.

Cláudia, após a primeira semana na aldeia, já prevê a dificuldade do regresso a casa: "As pessoas são muito calorosas, recetivas, recebem-nos com o melhor. Às vezes não têm muito, mas esforçam-se para nos dar o melhor. Acho que já vai ser difícil a despedida e ainda estamos a começar".
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