Trabalho analisa dados de mais de 16.000 pessoas em oito países de diferentes hemisférios.
Os efeitos negativos das notícias no humor e a perceção de saturação informativa aumentam os comportamentos de evitar o consumo de notícias, de acordo com um estudo publicado pelos investigadores Javier Serrano e María Fernanda Novoa.
O estudo dos investigadores da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra analisa porque é que cada vez mais pessoas evitam deliberadamente as notícias.
O trabalho analisa dados de mais de 16.000 pessoas em oito países de diferentes hemisférios para compreender o que motiva esta rejeição intencional e em que medida as emoções desempenham um papel central.
O estudo utiliza dados do Digital News Report (DNR) 2022 do Instituto Reuters (Reuters Institute), com uma amostra de 16.691 participantes da Austrália, Canadá, Dinamarca e Espanha (Norte Global) e Brasil, Chile, Índia e África do Sul (Sul Global).
Os resultados mostram que os fatores emocionais são os mais decisivos para explicar o evitar de notícias, ultrapassando os fatores motivacionais --- como a desconfiança nos media ou a falta de tempo --- e os fatores cognitivos --- como a dificuldade em compreender a informação.
As razões emocionais mais frequentemente apontadas são: "As notícias têm um efeito negativo no meu humor", "Estou exausto(a) com a quantidade de notícias" ou "Sinto que não posso fazer nada em relação à informação".
"Quando as pessoas experimentam emoções negativas ou uma perceção de saturação informativa aumentam o seu comportamento de evitação", afirma Serrano-Puche, professora do Departamento de Comunicação Pública da universidade.
A investigação está incluída na publicação 'The Handbook of Journalism and Emotions: Theory, Production, Content and Responses' (Wiley), uma obra que oferece uma perspetiva comparativa e intercultural sobre o consumo de notícias, incluindo análises de quase 60 investigadores de todos os continentes.
A análise sociodemográfica revela que as mulheres experimentam emoções negativas, fadiga informacional ou uma sensação de saturação de notícias com maior frequência do que os homens em todos os países estudados.
Também se observam diferenças com base na idade: no Norte Global, as pessoas com mais de 55 anos são o grupo com maior probabilidade de evitar notícias por razões emocionais, enquanto no Sul Global este fenómeno é mais pronunciado nos jovens adultos entre 25 e 34 anos.
O tipo de media também influencia o comportamento de evitar notícias. O consumo de media 'offline' --- televisão, rádio, imprensa --- está associado a uma menor evitação em países como Espanha, Canadá, Austrália e Chile.
Em contrapartida, a utilização das redes sociais não aumenta necessariamente a probabilidade de evitar notícias, exceto na África do Sul.
A ideologia política é também mais decisiva no Sul Global e em Espanha, embora sem um padrão homogéneo que se repita em todos os países.
Os autores alertam que evitar notícias não é apenas um fenómeno individual, mas enfraquece a base sobre a qual assenta a participação dos cidadãos na democracia.
"À medida que os meios de comunicação social perdem audiência, a democracia perde a base informada de que necessita para uma cidadania empenhada", conclui o relatório.
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