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Correio da Manhã

Sociedade
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Famílias de cegos reclamam ajudas

Os seis doentes que cegaram após uma injecção com um produto desconhecido, que já se sabe não ser o Avastin, têm a vida parada desde 17 de Julho. Não trabalham, mas as despesas e os prejuízos que estão a ter devido à inactividade forçada, que os obriga a estar numa cama do Hospital de Santa Maria, vão aumentando de dia para dia. Por isso, vão pedir ajuda à assistência social.

3 de Agosto de 2009 às 00:30
Familiares concordam que um pedido de indemnização deverá ser feito em conjunto
Familiares concordam que um pedido de indemnização deverá ser feito em conjunto FOTO: Duarte Roriz

Ana Oliveira, mulher de Américo Palhota, cego do olho esquerdo, conta ao CM que está a enfrentar graves problemas económicos pelos quinze dias de internamento do marido. "Não sei o que vou fazer à minha vida, já tenho um prejuízo de 500 contos [2500 euros] pela falta de venda dos livros e jornais do quiosque do meu marido". O rendimento que Américo Palhota tira no quiosque ajuda à magra reforma que aufere, 512 euros, reforçada com a reforma de 214 euros da mulher.

Para António José Martins, marido da paciente Maria Antónia, a esperança de uma recuperação vai diminuindo à medida que os dias passam. "Já não acredito que saia daqui a ver. Ela continua muito deprimida e vou ter de ser eu a fazer as coisas em casa. Só eu é que tenho reforma, pequena, de 680 euros, porque a minha mulher nunca trabalhou fora de casa e o dinheiro não vai chegar para pagar os medicamentos quando ela tiver alta médica. Vou precisar de ajuda da assistência social".

O mesmo pedido de ajuda vem de Albertina Rodrigues Lima, filha de Maria das Dores, a única doente que revela melhorias na visão. "A minha mãe via mal, mas fazia a vida normal. Cegou dos dois olhos e a nossa alegria é que está a melhorar da vista esquerda, mas não sabemos se voltará a trabalhar." Conta que a mãe, apesar de não distinguir as feições das pessoas, já vê ao longe cores (azul e cinzento) e o contorno de objectos.

"Queremos a visão deles, mas se os médicos disserem que não há recuperação avançamos para um pedido de indemnização conjunto", garantiu António José Martins. 

CASO ESTÁ EM SEGREDO DE JUSTIÇA

A investigação ao caso dos cegos do Santa Maria está em segredo de Justiça no Ministério Público, depois de a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed) e da Inspecção-Geral das Actividades Económicas terem entregue os seus relatórios.

O Infarmed revelou não ter encontrado "defeito na qualidade do Avastin analisado" e mais tarde concluiu que terão sido detectados erros de má prática nos serviços da farmácia hospitalar – a que o público não tem acesso – e de oftalmologia.

Resta saber o resultado das análises do Instituto Nacional de Medicina Legal às amostras dos produtos retirados dos olhos dos doentes. O director do serviço de oftalmologia do Hospital de Santa Maria, Monteiro Grillo, afirmou que o medicamento injectado não era o Avastin, declarações consideradas precipitadas. 

FAMILIARES ACREDITAM NA TESE DO AZAR

Gorete Lago Bom, mulher de Walter Lago Bom, disse ao CM que o marido continua sem recuperar a visão perdida dos dois olhos. "Está na mesma, não há qualquer alteração." Sobre o curso das investigações, Gorete diz nada saber. "Os médicos não nos dizem nada. Se sabem qual foi o produto que foi injectado no olhos não o dizem."

A mulher de Walter diz não acreditar que a troca de medicamentos tenha estado na origem de um acto criminoso. "Não acredito que alguém tenha querido fazer mal propositadamente, mas acredito que o que aconteceu foi devido a um acidente, um erro de alguém". 

APONTAMENTOS 

MEDICAMENTO

O medicamento que era suposto ser injectado nos olhos dos doentes é o Avastin (bevacizumab).

TRATAMENTO

Apesar de não ter autorização para o uso oftalmológico, os médicos usam-no para o tratamento da retinopatia diabética e asseguram bons resultados.

DIABÉTICOS

Cinco dos seis doentes são diabéticos e todos tinham uma visão diminuída, apesar de fazerem as suas vidas normais.

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