Presidente da FNAM diz que os médicos habituaram-se a não confiar no ministro da Saúde.
A presidente da Federação Nacional dos Médicos (Fnam) adiantou esta terça-feira que "vai ser difícil" chegar a um acordo com o Governo na reunião de quinta-feira, afirmando que os médicos habituaram-se a não confiar no ministro da Saúde.
"Vai ser difícil [conseguir um acordo], porque ainda não temos os documentos. Mais uma vez, ainda não temos os documentos. Estamos a exatamente 48 horas da reunião e ainda nada nos foi enviado", disse aos jornalistas Joana Bordalo e Sá.
A presidente da Fnam indicou, no entanto, que se as propostas forem entregues "a tempo e horas", antes da reunião, pode "ser o início de um futuro acordo".
"A proposta que nos foi apresentada [na semana passada] foi apenas uma projeção. Foi um sinal, uma abertura, mas nós temos de ver essas propostas concretizadas no papel. (...) Precisamos de ver esta abertura em documentos, num articulado como deve ser e que responda às reivindicações e às soluções que os médicos precisam para estar no Serviço Nacional de Saúde (SNS)", salientou.
"Habituámo-nos agora, no fim, a não confiar nas palavras do senhor ministro da Saúde [Manuel Pizarro]. Nós precisamos de ver esses documentos e vermos se, de facto, incorporam as soluções que a Fnam tem para o SNS e então, eventualmente, podemos no futuro chegar a um acordo", sustentou.
Esta terça-feira, cerca de três centenas de médicos manifestaram-se junto ao Ministério da Saúde, em Lisboa, em defesa da carreira médica e do SNS.
A manifestação aconteceu no primeiro de dois dias de greve convocada pela Fnam e cinco dias após os sindicatos se terem reunido com o Ministério da Saúde e de estar marcada uma nova ronda negocial quinta-feira.
No local, a secretária-geral da CGTP-IN, Isabel Camarinha, disse que a greve é uma resposta ao Governo que "não traz propostas suficientes".
"Do ponto de vista de política geral e da própria proposta do Orçamento do Estado [para 2024], não garante a reposta que é necessária. (...) É uma questão de opção que este Governo tem. E a opção do Governo não é garantir o reforço e a defesa do SNS público, universal e gratuito, como deveria ser", realçou a dirigente da central sindical.
Também o secretário-geral do PCP afirmou que os médicos precisam de ser respeitados e de ter condições de trabalho, dizendo que é "uma exigência justíssima".
"Estão a defender os seus direitos, mas também estão a defender o SNS. (...) Se forem respeitados, se forem valorizados, se tiverem condições para trabalhar, de certeza que os médicos optam pelo SNS, vestem a camisola do SNS, esse espírito de missão -- de dedicação -- tão importante que é aquilo que permite que o SNS ainda funcione", afirmou Paulo Raimundo.
A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Mariana Mortágua, referiu que os médicos "estão para defender" o SNS e que "têm razão para se sentirem indignados".
"Há um ano e meio procuram negociar com o Governo, o Governo nunca fez chegar uma proposta escrita. Não têm uma proposta escrita com as posições do Governo sobre esta matéria e até agora o que sabemos é que o Governo entende que o SNS tem de ser mantido à custa de horas extraordinárias, (...) quatro meses de horas extraordinárias por ano, destes profissionais. O que estão profissionais estão aqui a dizer é que não aguentam mais", disse.
A adesão à greve dos médicos ronda os 85%, segundo a Fnam.
O descontentamento dos médicos tem sido manifestado com greves e com a entrega, por cerca de 2.500 clínicos, de minutas de declarações de dispensa ao trabalho extraordinário, além das 150 horas anuais obrigatórias, que tem provocado constrangimentos nos serviços de urgência de vários hospitais do Serviço Nacional de Saúde.
Na proposta apresentada aos sindicatos na quinta-feira, o Ministério da Saúde prevê um suplemento de 500 euros mensais para os médicos que realizam serviço de urgência e a possibilidade de poderem optar pelas 35 horas semanais.
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