Atletas que atalharem os 42,195 quilómetros regulamentares nas próximas edições da prova podem ser processados.
A organização da maratona do Porto equaciona banir e instaurar processos-crime aos atletas desclassificados que atalharem os 42,195 quilómetros regulamentares nas próximas edições da prova, adiantou hoje à agência Lusa o diretor-geral da Runporto.
"No próximo ano tenciono fazer uma repreensão, avisando que em 2021 proibiremos todos os desclassificados de se inscreverem durante um ano nas nossas provas. Se durante estes três anos houver reincidentes, equacionaremos a possibilidade de mover processos-crime, caso esta matéria configure um crime de fraude", referiu Jorge Teixeira.
Debruçada em travar "com coragem" a onda de resultados duvidosos na distância olímpica, a empresa nortenha desclassificou 128 atletas que cruzaram a meta sem terem cumprido a totalidade do percurso na 16.ª edição da maratona do Porto.
"Neste momento não farei mais do que isto. Não sei se um homem correr com dorsal de mulher dá prisão em Portugal, mas noutros países dá. Estes atletas cortam a meta e levantam tudo aquilo a que um dorsal que passa a meta tem direito", observou o dirigente da Runporto, organizadora de 20 corridas por ano.
Ao contrário de outras latitudes, o assunto era tabu por cá, mas Jorge Teixeira pretende apertar a malha a uma sociedade "sem cultura desportiva", recordando que alguns corredores já foram condenados a prisão por atitudes idênticas na maratona de Londres.
Numa era em que as tecnologias multiplicam audiências por cada indivíduo, o psicólogo Jorge Silvério defende que as "motivações intrínsecas" de um atleta querer ganhar a si próprio antes de derrotar os outros "são as melhores", embora nem sempre seja assim.
"Há a vontade de ganhar misturada com a encenação de outra personagem, criada nas redes sociais, que nem sempre corresponde à realidade. Depois não se quer dar parte fraca, porque correr uma maratona implica um enorme esforço físico e mental, nem todos estão preparados e às vezes escolhem a via mais fácil", reconheceu à agência Lusa.
Aplaudindo a posição tomada pela Runporto, o embaixador do Plano Nacional para Ética no Desporto avisou que as "reações de indignação" dos desclassificados não legitimam que "valha tudo" para obter resultados, esperando que outras organizações sigam o exemplo.
"Não havia essa tradição, mas as pessoas têm de se preocupar em tentar perceber o que aconteceu e, se houver razões, não voltarem a ter estes comportamentos. Estas medidas são relevantes e é importante que haja algum tipo de penalização, para que o desporto seja mais um veículo de promoção de valores e não tenha o efeito contrário", aconselhou.
Numa edição "imaculada" e afortunada pelo "bom tempo", Jorge Teixeira admitiu "não ter sido possível" controlar a afluência de excluídos às artérias de Porto, Vila Nova de Gaia e Matosinhos, sob pena de exigir "quase um polícia por corredor".
"Em Londres há 84 quilómetros de grades cheias de gente a aplaudir nos dois lados, o que intimida qualquer atleta que queira entrar a meio do percurso. Não tenho isso por cá e as cidades pedem-nos para montar e desmontar o mais rápido possível", comparou.
A solução passa por agir em conformidade com a evolução de mecanismos que registam o progresso dos corredores, embora o ex-maratonista acredite que a publicação dos desclassificados permitirá suplantar a participação registada em 2019.
"Estamos a ganhar muitos mais apaniguados. Quero que as pessoas venham ao Porto sabendo que há uma organização que zela pelos que completam a prova e condena quem não a fez pelos mais variados motivos. Procuramos ser os mais perfeitos possíveis, embora um evento de rua tenha muitas variantes que podemos não controlar", admitiu.
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