Serviço Nacional de Saúde faz 40 anos. Ana Jorge testemunhou a revolução na saúde e no País.
1 / 2
A pediatra e antiga ministra da Saúde Ana Jorge começou a exercer pouco antes da criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS), num tempo em que escasseavam médicos nas zonas rurais e havia quem nunca tivesse ido a uma consulta.
Foi poucos meses antes da Revolução de Abril de 1974 que Ana Jorge vestiu pela primeira vez a bata de médica. Faltavam ainda cinco anos para que nascesse o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o cenário era dramático. Não havia serviços de saúde gratuitos e os cuidados eram incipientes.
A pediatra "abraçou" o SNS desde que foi criado, há exatamente 40 anos, e hoje recorda em entrevista à Lusa a sua importância na melhoria das condições de saúde dos portugueses.
Trabalhou em centros de saúde e hospitais, mas também presidiu à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e foi ministra da Saúde. Em 2009 instituiu oficialmente o Dia Nacional do SNS.
Quando se dá o 25 de Abril, Ana Jorge vai substituir um colega numa consulta num centro de saúde da Junta Distrital de Lisboa e foi ali o seu primeiro contacto com a área da saúde infantil.
Num tempo em que o planeamento familiar ainda era visto com maus olhos por parte da população, não teve dúvidas e ajudou a erguer o primeiro centro de saúde materno-infantil. Foi em 1976 que integrou o Serviço Médico à Periferia (SMP) em Alcácer do Sal e Grândola, onde surgiu o pioneiro centro com consultas de planeamento familiar.
Para Ana Jorge, o SMP foi um "contributo grande" para que houvesse mais médicos distribuídos pelo país, nomeadamente em zonas rurais onde "nunca tinha chegado praticamente um médico" e "havia pessoas que nunca tinham ido a uma consulta".
Mas foi em 1979, com a criação do SNS, que se notou uma grande mudança que ajudou os profissionais no seu dia-a-dia de trabalho: "Para nós era difícil porque tínhamos as pessoas doentes à nossa frente e não sabíamos como as podíamos cuidar".
E os ganhos alcançados foram muitos. "Até ao SNS, a taxa de mortalidade infantil ainda estava nos 58 por mil", o que comparativamente com os outros países da Europa era "muito grave", e "hoje felizmente estamos entre os melhores".
"O número de vacinas que hoje existe permite que a grande maioria das doenças que havia nas crianças", como o sarampo, "deixassem de ser um problema", reconheceu, apontando ainda os ganhos alcançados com a vacina contra a hepatite B ou com o tratamento da hepatite C que permite curar praticamente todos os doentes.
Mas o mais importante foi conseguir tornar universal o acesso aos cuidados de saúde.
A profissional lembrou como era o acesso dos portugueses aos cuidados de saúde antes de 15 de setembro de 1979.
Nessa altura, não havia serviços de saúde gratuitos e os cuidados eram incipientes. A população podia contar com os hospitais concelhios das Misericórdias e os hospitais universitários em Lisboa, Porto e Coimbra.
Além destes serviços, havia as caixas de previdência e a casas do povo nas áreas rurais, recordou.
A medicina privada só estava acessível a "quem tinha dinheiro". Ana Jorge lembra que muita gente não tinha acesso à saúde e não eram raros os casos de quem conseguia uma consulta depois não tinha como comprar os medicamentos. É que, na altura, só os beneficiários da caixa de previdência tinham descontos nos medicamentos.
Só no início dos anos 70 começam a abrir "os centros de saúde da primeira geração" um pouco por todo o país, que eram uma resposta para quem não tinha caixa de previdência. Este novo serviço foi resultado da reforma levada a cabo por Gonçalves Ferreira e Arnaldo Sampaio, pai do antigo Presidente Jorge Sampaio, então diretor-geral de Saúde.
Muitas vezes as pessoas não entendem alguns constrangimentos, "porque se esqueceram, um pouco, como era antes", sublinhou.
"Há toda uma mudança na sociedade portuguesa em que o Serviço Nacional de Saúde é de facto um marco não só para ajudar como ele próprio é um setor de desenvolvimento económico e social. Só assim se conseguiu que Portugal em 30, 40 anos conseguisse ser completamente diferente do que era", frisou.
Contudo, o SNS enfrenta hoje "novos desafios" a que precisa de responder com novas estratégias, mas mantendo os seus princípios.
"Não podemos ter hoje um Serviço Nacional de Saúde igual ao que tínhamos há 40 anos", porque "o mundo mudou, as condições de saúde das pessoas em geral mudaram, felizmente para melhor, mas há novos desafios" relacionados com novas doenças, muitas delas ligadas ao envelhecimento.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.