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Correio da Manhã

Sociedade

Habitantes da Covilhã recusam ser fãs de esqui e desmentem José Sócrates

Ex-governante alegou em interrogatório que, porque nascera na Covilhã, seria natural fazer férias de inverno no estrangeiro.
Luís Oliveira e Alexandre Salgueiro 15 de Dezembro de 2019 às 10:42
Estância de esqui
Manto de neve corta estradas na Serra da Estrela
Estradas na Serra da Estrela
Estância de esqui
Manto de neve corta estradas na Serra da Estrela
Estradas na Serra da Estrela
Estância de esqui
Manto de neve corta estradas na Serra da Estrela
Estradas na Serra da Estrela
Aideia de que a maioria dos habitantes da Covilhã pratica esqui, devido à proximidade da serra da Estrela, tese que foi defendida por José Sócrates diante do juiz Ivo Rosa, em interrogatório, no âmbito da instrução da Operação Marquês, é um mito e está longe de corresponder à realidade.

Na verdade, a esmagadora maioria dos covilhanenses nunca praticou esqui ou outro qualquer desporto de inverno, para além da modalidade popularmente apelidada de ‘sku’, em que escorregam na neve sentados num saco de plástico.

Quando questionado por Ivo Rosa sobre o facto de não ter dinheiro e, ainda assim, partir para férias tão dispendiosas, o antigo primeiro-ministro José Sócrates alterou o tom de voz, usando da condição de habitante da Covilhã para justificar a despesa.

"Se não conseguisse pagar, pedia um empréstimo ao meu banco. Peço desculpa pelo meu tom, mas sinto-me humilhado por ter de responder a esses detalhes. O senhor juiz tem o dever de fazer as perguntas, peço-lhe que não considere o meu tom para além disto. Eu nasci na Covilhã e quem lá nasceu faz esqui. Temos ali a serra da Estrela", justificou o antigo governante.

O esqui implica fazer um investimento considerável no aluguer ou compra de equipamento. A maioria dos residentes na Covilhã nunca praticou e tem dificuldade em identificar familiares ou amigos próximos que sejam adeptos da modalidade.

"Eu sou mais de praticar ‘sku’. Não conheço ninguém que faça esqui", disse ao CM Fernando Martins, 57 anos, morador na Covilhã. "Eu não faço, mas tenho alguns amigos que praticam. São poucos porque é um desporto muito caro", afirmou Rui Mota, motorista da Universidade da Beira Interior.

São os próprios praticantes de desportos de inverno da região que reconhecem que são muito poucos os covilhanenses que sabem esquiar, ou têm interesse na modalidade.

Luís Agostinho, 47 anos, ex-praticante de esqui, salienta que na Covilhã não há muita gente a praticar o desporto. "Nota-se que há poucas pessoas. Muita gente deve pensar que, por estarmos aqui a meia dúzia de quilómetros da estância, há muitos praticantes mas não é verdade", explicou ao CM o covilhanense. "Aqui não há muita gente a praticar desportos de inverno", reforçou Nuno Barata, 34 anos.

"José Sócrates referiu-se ao esqui na Covilhã por ser conhecida como ‘cidade neve’, mas isso não significa que os seus habitantes sejam adeptos do esqui", salientou Ricardo Abreu, ex-gestor da estância de esqui situada na zona da Torre, na serra da Estrela.

Depoimentos
José Manuel Fernandes
63 anos, ex-funcionário da C.M. Covilhã
"Dizer que toda a gente pratica é um abuso"
"Eu não faço esqui mas tenho amigos que sim. Mas não está ao alcance de muita gente. É preciso ter dinheiro para bom equipamento. Dizer que toda a gente pratica é um abuso".

Nuno Barata
34 anos, comunicador
"Não há muita gente a praticar esqui"
"Eu pratico snowboard há muito tempo. Mas não há muita gente a praticar esqui ou outros desportos de neve. Tenho amigos que o fazem, mas não se pode dizer que seja uma modalidade muito praticada aqui".

Ricardo Abreu
41 anos, ex-funcionário estância Torre
"Não há cultura da neve em Portugal"
"Na Covilhã, conhecida como a cidade neve, há algumas pessoas a praticar esqui, mas não considero que seja um desporto muito massificado nesta região. Tenho a ideia de que não há cultura da neve em Portugal".

Sócrates nasceu no Porto e foi registado em Alijó
Interrogado a propósito da Operação Marquês, José Sócrates afirmou diante do juiz Ivo Rosa que nasceu na Covilhã, o que não corresponde à verdade.

Segundo a biografia do ex-governante, nasceu a 6 de setembro de 1957 na freguesia de Miragaia, no Porto, mas acabou registado na freguesia de Vilar de Maçada, em Alijó, Vila Real.

Só depois foi viver para a Covilhã com o pai, que entretanto se radicara na cidade serrana. Foi ali que fez carreira política e amigos para a vida - entre eles Carlos Santos Silva.
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