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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Habitantes de Azambuja angustiados com ameaça de cheias na Lezíria do Tejo

"Nunca vimos nada assim. Hoje o rio da Ota passou para o rio de Alenquer. Não me lembro de alguma vez ter acontecido", exclamou uma moradora idosa da vila ribatejana do distrito de Lisboa.

05 de fevereiro de 2026 às 22:26

Desespero e incerteza eram os sentimentos dominantes esta quinta-feira à tarde entre os habitantes da freguesia de Vila Nova da Rainha, no concelho de Azambuja, onde as águas do Tejo ameaçam as habitações e já obrigaram à retirada de moradores.

"Nunca vimos nada assim. Hoje o rio da Ota passou para o rio de Alenquer. Não me lembro de alguma vez ter acontecido", exclamou uma moradora idosa da vila ribatejana do distrito de Lisboa.

Localizada a cerca de 50 quilómetros de Lisboa, entre as localidades do Carregado (concelho de Alenquer) e de Azambuja, Vila Nova da Rainha (concelho de Azambuja) viu-se hoje ainda mais isolada com o corte da circulação da Estrada Nacional 3 (EN3), devido à subida do caudal do Tejo.

Dentro da vila, algumas habitações chegaram mesmo a ficar ameaçadas, obrigando à retirada de cerca de 10 moradores, transferidos para a Casa da Juventude, segundo indicou à Lusa o presidente da Câmara Municipal de Azambuja, Silvino Lúcio (PS).

Junto a algumas habitações mais altas foram colocados sacos de areia para tentar evitar a entrada de água nas garagens, numa operação acompanhada de perto por elementos da proteção civil, militares da GNR e exército.

As previsões de chuva nas próximas horas estão a deixar angustiados alguns moradores ouvidos pela Lusa, que temem perder tudo, como é o caso de Ana Rocha.

"Eu não vivo cá, vivem os meus pais, mas estou cá com eles desde sexta-feira e tivemos que sair de casa", relatou, de forma emocionada, confessando que as próximas horas vão ser de "muita angústia e incerteza", dada a ameaça das águas.

"Fechou-se uma porta com sacos [de areia] e não sabemos o que vamos encontrar ali", afirmou.

A residir há 73 anos em Vila Nova da Rainha, Manuela Matos, de 90 anos, olha com perplexidade da sua janela para a lezíria, onde às águas vão subindo com alguma rapidez.

"Está tudo muito preocupado, sobretudo aqueles que têm ali as garagens. O meu vizinho que mora aqui no direito, tem ali uma garagem, coitado, e está sempre preocupado, é por baixo da minha janela", relatou a idosa.

O Plano Municipal de Emergência do concelho de Azambuja foi ativado no domingo à noite

Mais a norte, no distrito vizinho de Santarém, o cenário de estradas cortadas e povoações isoladas repete-se, como a Lusa constatou no local.

Em localidades como Vale de Figueira e São Vicente do Paul eram vários os avisos de "estrada submersa", impedindo o acesso a algumas povoações ribeirinhas.

Doze pessoas morreram em Portugal desde a semana passada na sequência da passagem das depressões Kristin e Leonardo, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal.

As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.

O Governo decretou situação de calamidade até domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.

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