Barra Cofina

Correio da Manhã

Sociedade
9

Hipertensão afecta mais carenciados

A esmagadora maioria dos cidadãos residentes nos bairros sociais sofre de problemas de hipertensão arterial devido aos hábitos alimentares. O consumo, anos a fio, de alimentos salgados, ricos em gordura, e uma alimentação pobre em vegetais, legumes e fruta, provocam a tensão alta, um dos factores de risco das doenças cardiovasculares, principal causa de morte em Portugal.

16 de Agosto de 2009 às 00:30
Hipertensão afecta mais carenciados
Hipertensão afecta mais carenciados FOTO: Vítor Mota

É o caso da maioria da população residente no bairro Santa Marta do Pinhal, em Corroios (Seixal), onde vivem cerca de cinco centenas de pessoas, oriundas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP): São Tomé, Angola, Cabo Verde e Guiné. Do emaranhado de casas abarracadas apercebe-se as fracas condições económicas dos seus habitantes.

Habitantes esses que, de diferentes idades, novos e idosos, procuram a Unidade Móvel da organização Médicos do Mundo (MdM), estacionada no largo. Os Médicos do Mundo prestam apoio uma vez por semana, às segundas-feiras. Às quartas-feiras, dão assistência aos residentes do Vale Chícharos (Fogueteiro) e às sextas-feiras estão na Recta de Coina, na assistência às prostitutas.

Fortunato Pina, 48 anos, interrompe por breves momentos o trabalho de reboco de um muro e aproxima-se da Unidade Móvel. "Sou hipertenso e venho aqui medir a tensão, para saber se está mais controlada". Residente em Portugal há 15 anos, este natural de Cabo Verde admite que a alimentação nem sempre é a mais saudável. E confessa que se não existisse esta assistência da Unidade Móvel dos MdM não controlava tão bem a tensão arterial. E explica porquê: "Ir ao centro de saúde custa dinheiro, que não tenho, e tempo livre, que também não tenho, porque tenho de trabalhar para ganhar a vida".

Mariana Guilhermina é outra moradora. Não sabe quantos anos tem, mas sabe que tem a tensão alta. "Não é bom ter a tensão alta, mas venho cá medi-la para ver se melhorou."

O coordenador da Unidade Móvel, Ricardo Dias, diz que conseguem obter bons resultados na assistência porque estabeleceram uma importante relação de confiança com os moradores. "Tenho a certeza de que a maioria destas pessoas não conseguiria controlar a tensão arterial sem a nossa assistência porque não iria procurar um médico no centro de saúde". 

TESTES DE SIDA RÁPIDOS

A partir de Outubro os Médicos do Mundo (MdM) promovem a realização de testes rápidos de rastreio ao vírus da sida (VIH), cujo resultado é obtido em vinte minutos. Segundo a psicóloga clínica Carla Fernandes, os técnicos já receberam formação. "Damos aconselhamento pré e pós-teste, haja resultado positivo ou negativo, porque ao tomar conhecimento da sua situação serológica, a pessoa toma consciência para os comportamentos de risco". 

DISTRIBUIÇÃO DE PRESERVATIVOS

Todas as sextas-feiras a carrinha da organização pára na Recta de Coina. Distribuem preservativos e dão informação às prostitutas sobre comportamentos de risco e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. "Dizem que usam sempre o preservativo mas têm mais confiança na qualidade dos que distribuímos do que aqueles que compram na rua a vendedores". 

LINHA PARA NOVA UNIDADE MÓVEL 

Os Médicos do Mundo criaram uma linha telefónica solidária de valor acrescentado para a compra de uma nova Unidade Móvel, para o projecto ‘Noite Saudável’, que custa 50 mil euros. Para contribuir para aquela causa social basta ligar para o número 760 501 050, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Cada chamada telefónica tem um custo de 60 cêntimos mais IVA. A organização Médicos do Mundo recebeu, até ao início de Agosto, cerca de 170 chamadas telefónicas. 

"RECEITAS CAÍRAM" (João Blasques Oliveira, Médico, responsável dos MdM)

Correio da Manhã – Que apoio dá a vossa organização?

Blasques Oliveira – Prestamos apoio ao nível dos cuidados primários de saúde, cuidados clínicos e psicossociais.

– Quem procura a vossa ajuda?

– São as camadas mais desfavorecidas da sociedade, pessoas sem-abrigo, toxicodependentes, trabalhadoras do sexo, imigrantes, idosos ou isoladas e com baixos rendimentos.

– Essas pessoas não recebem ajuda de serviços públicos?

– Não, por medo ou discriminação social não procuram os centros de saúde.

– Há casos de discriminação?

– Relataram-nos casos de discriminação e recusa no atendimento, por ignorância.

– Que apoios têm?

– Nos últimos 18 meses as nossas receitas caíram um terço. Se há dois anos as pessoas nos davam, por exemplo, 50 euros, hoje continuam a dar mas muito menos. 

O MEU CASO: "SEM DINHEIRO PARA IR AO MÉDICO" (CLAUDINA NEVES)

Claudina Neves, 67 anos, tem dificuldades em caminhar. O corpo, pesado, apoia-se na canadiana, enquanto se aproxima lentamente da Unidade Móvel da organização Médicos do Mundo (MdM). Senta-se no degrau de cimento enquanto espera a vez no atendimento. Tem ar fatigado e não mostra grande curiosidade pelos estranhos ao bairro. Certamente pensará nos familiares longe, em São Tomé, que não vê há anos. Ou pensará na doença que a atormenta: a hipertensão arterial. Ela, como outros residentes do bairro de Santa Marta do Pinhal (Corroios), mede ali a tensão arterial e recebe alguns medicamentos para a fazer baixar. Se não fossem os elementos da MdM dificilmente faria o controlo da tensão arterial.

Ao CM diz porquê: "Estou desempregada, não tenho dinheiro para ir ao centro de saúde", assegura, apesar de ter médico de família. Claudina Neves diz que sobrevive com o fundo de desemprego, que recebe depois do encerramento da empresa onde trabalhava. Não tem mais ajudas. "Se tivesse cá a família, ela ajudava, mas estou sozinha, tenho de contar apenas comigo. Mas também conto com a assistência da equipa", diz referindo-se aos elementos da MdM. A são-tomense espera conseguir a reforma "pelos anos que trabalhou na empresa". Se tivesse meios regressaria a São Tomé. 

PERFIL

Claudina Neves tem 67 anos e chegou de São Tomé, sua terra natal, há cerca de 12 anos. Veio para Portugal sem o acompanhamento dos familiares para receber tratamentos médicos que não tinha no seu país. Custou-lhe vir sozinha, sem a família. "[Os familiares] estão todos lá, ficaram na minha terra." Não sabe quando voltará e espera um dia voltar a abraçá-los.

NOTAS

PRESERVATIVOS

Além de preservativos, as trabalhadoras do sexo recebem informação sobre comportamentos de risco.

DISCRIMINAÇÃO

As pessoas sem-abrigo, imigrantes e toxicodependentes queixam-se de discriminação na saúde.

IDOSOS TÊM APOIO

As pessoas idosas que vivem sós também recebem assistência dos elementos da MdM.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)