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Correio da Manhã

Sociedade
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Já há falta de máscaras nos centros de saúde

O medo dos enfermeiros e médicos em enfrentar os casos suspeitos de gripe A, nos últimos meses, levou a que usassem de forma indiscriminada máscaras, luvas e batas. Ao que apurou o CM, neste momento há muitos centros de saúde que se debatem com escassez desse material de protecção, receando que se esgote numa altura em que aumentam os casos diagnosticados. Ontem, mais 215 pessoas foram infectadas.
20 de Agosto de 2009 às 00:30
O receio de contágio leva ao consumo desenfreado dos materiais de protecção
O receio de contágio leva ao consumo desenfreado dos materiais de protecção FOTO: Reuters

Fonte do Ministério da Saúde garante que o 'material é reposto nas unidades de saúde conforme as necessidades e só entra em ruptura se os produtores não conseguirem assegurar esse fornecimento.'

O director-geral da Saúde, Francisco George, diz não estar 'preocupado com o assunto' e afirmou ao CM que não recebeu informação dos centros de gestão de stock.

Enfermeiros de vários centros de saúde, que pediram o anonimato reportam ao CM as suas preocupações face às quantidades reduzidas de material que têm disponíveis: 'Fomos usando as máscaras por cada utente suspeito de infecção de gripe A. Agora temos muito pouco material armazenado, poucas máscaras e não sabemos quando é que o Ministério fornece mais. Se, a partir de agora, surgirem muitos casos suspeitos já não teremos material em quantidade suficiente. Vamos ficar sem protecção.'

O problema é do conhecimento do presidente do Sindicato dos Enfermeiros, Jorge Azevedo. 'É verdade. O material que normalmente é usado com peso, conta e medida passou a ser utilizado de uma forma exagerada, porque vivemos numa época em que as pessoas estão assustadas e até perderem o medo usam e abusam do material. Por essa razão, já há centros com escassez de material de protecção, prevendo-se que, dentro de pouco tempo, haja ruptura de stock.'

Segundo o responsável, os centros vão ter falta do material porque, numa epidemia, o consumo do material é superior à capacidade de reposição.

A protecção dos profissionais é importante para assegurar o funcionamento das unidades. O médico de saúde pública Mário Jorge Rego explica: 'É essencial que as unidades tenham equipas protegidas para assistir aos doentes de gripe para que, quando os profissionais adoecerem, haja elementos para assegurar os cuidados aos utentes.'

HOSPITAIS SÓ ATENDEM CASOS GRAVES

A nova fase de combate à epidemia de gripe A anunciada ontem, em Gaia, pela ministra da Saúde vai trazer uma alteração profunda na fase de diagnóstico. Ana Jorge afirmou que, até ao final da semana, os casos de H1N1 vão ser despistados nos centros de saúde, ficando os hospitais de referência reservados para os casos mais graves.

'Vão abrir, progressivamente, mais centros de atendimento mais próximos das pessoas, em centros de saúde, dado que temos que manter os hospitais para as situações de maior gravidade', disse Ana Jorge, à margem da inauguração das novas instalações no Centro Hospitalar de Gaia/Espinho.

De acordo com a ministra, a medida justifica-se porque Portugal está 'num processo entre a passagem da fase de contenção até à fase de mitigação' da doença e a implementação do novo sistema será progressiva.

'Como em qualquer patologia, as pessoas devem recorrer aos seus médicos de família. Também na gripe vamos ter capacidade de atendimento mais próximo das pessoas e mais facilitação no diagnóstico e comunicação', referiu a ministra, salientando que é desnecessário fazer análises a todos os doentes.

APONTAMENTOS

REGRAS DE UTILIZAÇÃO

O Ministério da Saúde declara que o uso das máscaras deve ser feito pelos profissionais de saúde e, apenas, por pessoas suspeitas de infecção ou com o diagnóstico confirmado. Não está aconselhado o uso indiscriminado de máscaras, cirúrgicas ou outras, pela população.

EFICÁCIA EM DÚVIDA

A Direcção-Geral da Saúde diz que não está provado que usar máscaras, por exemplo, cirúrgicas, ofereça uma protecção eficaz e reduza o contágio de gripe. O uso é recomendado no contexto da prestação dos cuidados de saúde.

DOENTES DEVEM USAR

As máscaras devem ser utilizadas pelos doentes nas deslocações para casa ou hospital ou em contacto com pessoas saudáveis.

ANÁLISES FEITAS NO DOMINGO SÓ CHEGARAM ONTEM

'Estou de férias no Algarve e, no domingo, como o meu filho estava com febre, fui ao serviço de atendimento de Albufeira fazer-lhe a análise da gripe A e ainda não recebi qualquer resposta, dizem que o laboratório está sem capacidade de resposta.'

A queixa, feita ontem sob anonimato, é de uma das pessoas que foram ao centro de saúde algarvio fazer a despistagem do vírus H1N1. O CM contactou o centro de saúde, de onde confirmaram que, precisamente ontem, começaram a chegar os resultados. Mas não foi dada qualquer explicação para o atraso. No Algarve, para aumentar a capacidade de resposta, foram criados seis serviços de atendimento à gripe A.

LINHA SÓ ATENDE À 3.ª CHAMADA

1.ª chamada – Início pelas 15h10. Após seis minutos de espera, doente desiste da chamada.

2.ª chamada – Início pelas 15h22. Após dez minutos de espera, doente desiste da chamada.

3.ª chamada – Início pelas 15h51. Após dez minutos de espera um operador atende. A conversação prolonga-se por onze minutos.

16h01 - Operador informa que a conversa irá ser gravada. Após pedir os dados ao utente do serviço de saúde tem início uma série de questões sobre os sintomas. O potencial doente de gripe A é também interrogado sobre o distrito e localidade de onde está a ligar, e se nos últimos dias fez alguma viagem ao estrangeiro ou ao Algarve, bem como se teve contacto com vítimas da doença.

16h05 - O doente explica que após umas férias no Algarve sofre de dores de garganta, olhos lacrimejantes e febre de 38 graus. Operador interroga então sobre se o doente regista algum dos seguintes sintomas: palidez, falta de ar, inchaços na boca ou na língua, dores no pescoço, dificuldade em mexer o pescoço, dores nos olhos ou nos ouvidos, sonolência, manchas ou pintas no corpo e cansaço. É também interrogado se possui feridas na boca ou lesões em outras partes do corpo, se tem tosse e se a urina é mais escura do que o habitual ou se tem dores a urinar.

16h09 -Após uma breve interrupção, operador recomenda, face aos sintomas apresentados os seguintes cuidados: gorgolejo com água morna e sal, chá de mel ou de limão, ingestão de sopas, como creme de legumes, saladas, iogurtes, pudins e outros alimentos de fácil digestão. Não partilha de alimentos, uso de soro fisiológico nos olhos e também no nariz para libertar a respiração. Uso de toalhas com água morna para baixar a febre, ingestão de muitos líquidos e uma toma de oito em oito horas de paracetamol, caso o doente tenha febre.

16h11 - Perante a dificuldade em estabelecer ligação com a Linha Saúde 24, potencial doente de gripe A pede para lhe ser indicado um local onde se possa dirigir, a fim de ser observado. O operador informa que a chamada será transferida para um enfermeiro que irá dar essa resposta. Pede ainda que o utente forneça o seu contacto de telefone para que na possibilidade da chamada vir a cair possam entrar de novo em contacto com o doente.

16h15 - A chamada é então transferida para o enfermeiro. Doente fica em espera com a audição de música. Passados três minutos a chamada chega ao fim, depois de dada a informação por uma voz do gravador de que não será possível estabelecer a ligação.

21h15 - Cinco horas após o fim da chamada e perante a falta de resposta da Linha Saúde 24, o potencial doente de gripe A pondera deslocar-se ao centro de saúde ou às Urgências hospitalares, onde há o risco de contagiar outros doentes.

LINHA AUMENTA ATENDIMENTOS

O director-geral da Saúde, Francisco George, e o responsável pela empresa que gere a Linha Saúde, a LCS, Artur Martins, estiveram reunidos ontem duas horas depois de a ministra da Saúde, Ana Jorge, ter acusado a empresa de incumprimento do contrato firmado para a gestão da Linha Saúde 24. No encontro, o responsável pela empresa LCS apresentou 'propostas' para aumentar a capacidade de resposta do serviço que começarão a ser aplicadas 'de imediato', disse fonte do Ministério da Saúde. Essas propostas passam por aumentar a capacidade de resposta e cumprir os valores contratualizados, que é o atendimento de dez mil chamadas por dia. Estão a atender três mil.

GRIPE VISTA À LUPA

215

novos casos de infecção pelo vírus da gripe A (H1N1) diagnosticados ontem em Portugal. Encontram-se internadas oito pessoas, seis das quais com prognóstico reservado.

ORDEM

A bastonária dos Enfermeiros, Augusta de Sousa, considera 'inaceitável' que o aumento das chamadas para a Linha Saúde 24 não tenha sido acautelado.

1757

casos de pessoas infectadas já foram diagnosticados em Portugal desde Maio.

DOENTES CRÍTICOS

A mulher de 30 anos internada no Hospital de S. João (Porto) mantém-se em 'estado crítico' e a jovem de 20 anos, no Hospital de Santo André (Leiria) apresenta ligeira melhoria.

2

casos confirmados em Timor--Leste, mas aguarda-se o resultado das análises de oito casos.

JOVENS SEM INFORMAÇÃO

Uma jovem de 21 anos, de Viseu, está há três dias sem saber se tem gripe A. Está isolada por iniciativa própria.

1799

mortos em todo o Mundo devido ao vírus da gripe A e mais de 182 mil de casos confirmados, diz a Organização Mundial de Saúde.

NOVA UNIDADE NO PORTO

Foi criado um novo posto de atendimento no Porto para a gripe A, aberto das 08h00 às 24h00.

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