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Correio da Manhã

Sociedade
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Livro revela os bastidores da negociação do tratamento para a Hepatite C

Hospital de Santa Maria em Lisboa já tratou 2419 doentes.
Sónia Trigueirão 6 de Dezembro de 2018 às 18:55
Hospital de Santa Maria, em Lisboa
Hospital de Santa Maria
Hospital de Santa Maria, em Lisboa
Hospital de Santa Maria, em Lisboa
Hospital de Santa Maria
Hospital de Santa Maria, em Lisboa
Hospital de Santa Maria, em Lisboa
Hospital de Santa Maria
Hospital de Santa Maria, em Lisboa

O Hospital de Santa Maria, em Lisboa, faz 64 anos no próximo sábado e para assinalar o aniversário foi decidido publicar um livro com o titulo "Hepatite C , O Futuro começou aqui", que é lançado esta sexta-feira.

De acordo com Carlos Martins, presidente do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), ao qual pertence o Hospital de Santa Maria,  nada como relembrar um dos episódios mais marcantes da vida da instituição para celebrar o seu aniversário.

Segundo o gestor, desde 2015 até outubro deste ano, foram tratados no Santa Maria 2419 doentes, sendo que totalmente recuperados estão 2346. 

Carlos Martins relembra que este livro mostra que, antes do acordo entre o Estado português e a indústria farmacêutica, para a aquisição de um tratamento para os doentes da hepatite C, já o hospital estava na linha da frente a tentar tratar dos seus doentes, através de protocolos para ensaios clínicos. 

"Foi um período em que, mais uma vez, o Hospital de Santa Maria soube estar na vanguarda e representar o mais elevado sentido da prática médica e da missão pública que lhe está confiada", disse.

No livro, que conta com vários testemunhos de decisores políticos e até de doentes, o antigo ministro da Saúde e atual presidente da Caixa Geral de Depósitos,  Paulo Macedo, explica como foram as negociações, em fevereiro de 2015,   com o laboratório que comercializava, na altura, o único tratamento para os doentes com hepatite C.

O antigo ministro garante que não foi o episódio do doente que, a 4 de fevereiro de 2015, na Assembleia da República, se dirigiu a si  e gritou: "Não me deixe morrer". 

"Quando no Parlamento me foi lançado um apelo mediaticamente preparado, para o alargamento do tratamento da hepatite C, no dia 4 de fevereiro de 2015, já a negociação no dia anterior, estava praticamente finalizada e foi possível anunciá-la um dia depois, face ao enorme trabalho que tinha sido realizado, conforme descrito. Tínhamos um programa sustentável para erradicar a doença e não para tratar apenas mais umas centenas de doentes como tinha acontecido até este acordo", escreveu Paulo Macedo, para quem aquele apelo foi preparado para instalar a polémica.

"Não foi fácil negociar sob uma grande pressão mediática, com as acusações recorrentes de economicismo utilizadas sistematicamente contra o decisor público", conta.

Também Eurico Castro Alves, que naquela altura era  presidente da Autoridade Nacional do Medicamento  (Infarmed), descreve os bastidores desta negociação difícil. 

"O preço inicialmente reclamado pelo laboratório, no que tocava à comparticipação do medicamento pelo Estado português, era proibitivo", escreve, acrescentando que, "nessa acepção, os preços postos em negociação conduziriam rapidamente o Estado português a uma despesa insustentável, e bem assim a uma ruptura financeira no sector da Saúde. Instalou-se o desânimo! Continuávamos a querer que Portugal fosse um país onde todos, sem excepção, tivessem garantido o acesso ao tratamento curativo, e o objectivo mantinha-se elevado".

O  livro conta com o prefácio de Francisco George, Presidente da Cruz Vermelha e ex-Diretor-Geral da Saúde, com uma nota Introdutória de Fausto Pinto, diretor e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa,o depoimento do ex- ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, e de vários especialistas e utentes.

Um deles, Pedro Castro, descreve como, na tarde do dia 25 de dezembro de 2014, recebeu um  email do Dr. Carlos Neves Martins, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte, que não conhecia e que lhe disse que, apesar de ter sido recusado o tratamento , iria continuar a lutar para conseguir o tratamento para mim e para os utentes do seu hospital.

Luis, outro utente,  escreve: " Ainda hoje me lembro do meu olhar meio envergonhado e do olhar da farmacêutica, igualmente pouco à vontade, ao entregar-me as duas caixas de 28 comprimidos, que custavam 29 mil euros. Seguiu-se uma breve explicação sobre a administração dos dois comprimidos. Entre frases e sorrisos, reinava uma sensação, que jamais tinha sentido, de agradecimento, esperança e de que uma luta estava a ser ganha".

A compra dos medicamentos inovadores já permitiu, até agora, curar cerca de 11 mil doentes no país todo. 

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