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Correio da Manhã

Sociedade
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Magalhães na gaveta

Lançado em 2007 como grande bandeira do primeiro governo de Sócrates, o computador portátil Magalhães parece estar cada vez mais encostado a um canto nos lares portugueses. "A minha filha Rita usa pouco o Magalhães e quando o faz é para jogar. Nunca levou o computador para as aulas", disse ao CM Isabel Reis, de 47 anos, secretária e mãe de uma aluna do 4º ano, em Lisboa. O registo é semelhante ao de todos os pais ouvidos pelo CM. "O meu filho Igor, de 10 anos, praticamente não o usa, prefere outro que temos em casa. Só o levou uma vez para a escola, não foi estimulado a usar mais. Gastei 50 euros para nada", conta Susana Duarte, de 31 anos, monitora num colégio privado em Lisboa.
8 de Setembro de 2010 às 00:30
Seja por falta de interesse dos conteúdos ou falta de formação dos professores, o computador é pouco usado.
Seja por falta de interesse dos conteúdos ou falta de formação dos professores, o computador é pouco usado. FOTO: António Cotrim/Lusa

De acordo com o Governo, o programa e.escolinha já distribuiu 412 713 Magalhães. As famílias dos alunos pagaram directamente 12 milhões de euros e a Acção Social Escolar 50 milhões de euros. E a ministra da Educação, Isabel Alçada, já anunciou que no arranque do ano lectivo serão distribuídos outros 250 mil, que custarão mais de 50 milhões de euros aos contribuintes.

Os professores apontam o dedo ao Governo pela escassa utilização do portátil. "O Magalhães chegou às escolas como elemento de propaganda do Governo e não como instrumento de trabalho de alunos e professores", disse ao CM Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, criticando a falta de acções de formação para melhor preparar os docentes.

Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap), considera que a má escolha dos conteúdos explica o facto de os Magalhães não estarem a ser mais bem aproveitados. "O Ministério da Educação teve dificuldade em definir melhor os conteúdos ligados ao computador para tornar o Magalhães um instrumento incontornável e de grande utilidade nas escolas. É preciso também mais formação de docentes na área das TIC [Tecnologias de Informação e Comunicação]", afirmou ao CM.

A pedopsiquiatra Ana Vasconcelos reconhece que "muitas vezes o Magalhães é posto a um canto" e responsabiliza os pais: "Muitos pais vêem o Magalhães como uma consola de jogos e não investem o suficiente para que os filhos possam tirar mais do portátil." Como sucede noutras situações, a falta de tempo dos pais para os filhos é um problema. 

PORTUGAL GASTA MAIS NA EDUCAÇÃOMAS CONTINUA ABAIXO DA MÉDIA

Portugal gasta cerca de 5200 euros com cada aluno do sector público, ocupando o 16º entre 33 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O nível de investimento subiu cerca de mil euros mas mantém-se abaixo da média, na ordem dos 6400 euros, permite concluir um estudo ontem divulgado.

O documento ‘Education at a Glance' (Um olhar sobre a Educação) aponta ainda Portugal como um dos países que registaram maior aumento do número de pessoas com o ensino secundário e superior nos últimos anos, embora, mais uma vez, tenha sido insuficiente para alcançar a média. O nosso país é, contudo, um dos três onde o diploma universitário maior diferença faz no dinheiro que se ganha a trabalhar.

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