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Correio da Manhã

Sociedade

Marcas no corpo sequelas na mente

É no corpo que a doença se manifesta em alguns casos, – cobrindo de marcas 80 por cento da superfície corporal –, mas as consequências para a mente não são de menor dimensão. A psoríase, segundo os resultados do 1º Estudo Sociológico sobre a doença, tem impacto psicológico em 76 por cento dos doentes.

26 de Outubro de 2008 às 00:30
A enfermeira Carla Vieira mostra uma das máquinas usadas no tratamento
A enfermeira Carla Vieira mostra uma das máquinas usadas no tratamento FOTO: Tiago Monteiro

A mudança da imagem corporal bem como os olhares enviesados de quem passa e repara são motivo de sofrimento para os cerca de 250 mil portugueses que sofrem desta doença crónica. É por isso que o alerta da coordenadora do serviço de Dermatologia do Hospital de S. João, (Porto), Sofia Magina, ganha ainda maior relevância: 'A doença não é contagiosa, não há perigo no contacto ou no manuseamento de alimentos'.

Apesar de deixar sequelas profundas, a doença tem uma componente de impervisibilidade enorme. Pode surgir em qualquer fase da vida, com manifestações mais ligeiras ou mais severas. 'Aparece e desaparece e tem vários surtos. Às vezes estamos oito anos sem ver um doente que está impecável. Passado esse tempo ele volta a aparecer', disse ao CM a especialista.

A clínica refere que a vida destes doentes é constrangida. 'Têm receio de ir aos ginásios, as pessoas afastam-se e limita o dia-a-dia, para além do prurido ser incomodativo. Nos casos mais graves, por exemplo, pode até fazer fissuras nos pés e as pessoas não se podem calçar', reconhece.

Quando os tratamentos tópicos, com cremes, não são suficientes para minorar as sequelas da doença é necessário recorrer a uma terapia com raios UVA e UVB. Entre duas e três vezes por semana, os pacientes têm de se deslocar ao hospital para nova sessão. 'Ajudam bastante a controlar a doença ', referiu a clínica.

O desenvolvimento científico leva Sofia Magina a afirmar que a doença, no futuro, será controlada com uma injecção trimestral.

NOTAS

GENÉTICA, FAMÍLIA E INFECÇÕES

É uma doença multifactorial. Hereditariedade, genética e infecções contribuem para o surgimento da doença.

MERCADO PARALELO ENGANA

Tal como noutras doenças há um mercado paralelo de mezinhas que Sofia Magina afirma enganar as pessoas.

APOIO PARA OS DOENTES

A Associação Portuguesa de Psoríase já abriu inscrições para um grupo terapêutico de apoio psicológico.

CUIDADOS MAIS IMPORTANTES

O SOL

A exposição ao sol é considerada, em doses moderadas, benéfica e barata. A pele morena disfarça as lesões.

STRESS

Os livros afirmam e os doentes não desmentem: o stress pode ser um potenciador da doença, que ganha maior dimensão em épocas de mais agitação.

DROGAS

As drogas em geral são prejudiciais para o avançar da doença: tabaco, drogas injectáveis e álcool. Também deve haver um cuidado especial com os betabloqueadores, analgésicos e alguns anti-inflamatórios.

VARIAÇÕES CLIMÁTICAS

As variações climáticas bruscas devem ser evitadas e informar o médico sobre os fármacos que está a tomar.

AS FORMAS DA PSORÍASE

EM PLACAS

É o tipo mais comum, com lesões cutâneas avermelhadas cobertas de escamas esbranquiçadas, sendo a evolução extensão variáveis.

INVERSA

Lesões vermelhas que afectam as zonas das pregas da pele.

GUTATA

Lesões cutâneas avermelhadas que parecem gotículas.

ERITRODÉRMICA

Esta é uma forma generalizada de psoríase, na qual a pele de toda a superfície corporal adquire um aspecto vermelho e inflamado.

PÚSTULAS

Esta tipologia caracteriza-se pelo aparecimento de pústulas (pequenas bolhas cheias de pus).

ZONAS MAIS AFECTADAS

A doença espalha-se por todo o corpo mas podemos dizer que é mais visível no tórax, braço, costas, axilas, mãos e pés.  

TÓRAX (Psoríase gutata)

Lesões de menores dimensões (forma de gota), que ocupam áreas extensas do tronco e membros.

BRAÇO (Psoríase em placas)

Este tipo de psoríase representa a grande maioria dos casos. Em contraste com o seu aspecto exuberante, estas lesões são muitas vezes assintomáticas.

COSTAS (Psoríase eritrodérmica)

Tipologia na qual a pele de toda a superfície corporal adquire um aspecto vermelho e inflamado.

AXILA (Psoríase inversa)

As lesões são vermelhas, brilhantes e não têm escama evidente. Este aspecto menos 'típico' pode dificultar o diagnóstico.

MÃOS E PÉS (Psoríase com pústulas)

A mais frequente é a pustulose palmo-plantar, na qual estas lesões surgem sobre um fundo avermelhado nas palmas das mãos e nas plantas dos pés.   

ADOLESCÊNCIA FOI UMA FASE 'COMPLICADA'

Dália Madruga, repórter do programa ‘Só Visto’, da RTP 1, é uma das figuras públicas que dá a cara pela psoríase. Foi aos 14 anos que as primeiras manchas avermelhadas lhe apareceram nas pernas. No entanto, afirma ser 'uma sortuda, porque há longos períodos em que a doença não se manifesta'. A surpresa foi grande, mas a hereditariedade da doença prevaleceu no caso de Dália. 'Foi complicado porque as raparigas são mais vaidosas na altura da adolescência e receava ser discriminada', contou ao CM.

PORMENORES

AFLUÊNCIA

Entre 20 a 60 pacientes passam, diariamente, pelo serviço de dermatologia do Hospital S. João.

DERMATOLOGIA

No serviço de Dermatologia do Hospital S. João trabalham 19 médicos, seis enfermeiros e um auxiliar de acção médica.

MEDICAMENTOS

Ocusto das pomadas para o corpo e champôs para o couro cabeludo faz com que Hélder Campos gaste 200 euros/mês.

O PERIGO DOS OLHARES DE LADO (O MEU CASO: HÉLDER CAMPOS)

Equizemas: este foi o primeiro nome que deram às marcas que lhe começaram a polvilhar o corpo. Mas a persistência dos sintomas levou Hélder Campos a procurar outras opiniões, até ao diagnóstico final: psoríase.

Começou com as mezinhas, ou 'pomadinhas' que lhe queimavam o corpo, mas de nada valeu. As marcas resistiram e o rótulo de 'doença crónica' começava a pesar. 'Faz-me muita impressão ter as pessoas a olhar para mim de lado. Não falam, não perguntam o que é. Isso fere. Torna-se realmente incomodativo', afirma o jovem escriturário.

Hélder adorava fazer desporto, mas os calções e as t-shirts passaram a ser uma barreira difícil de ultrapassar. 'Comecei a esconder-me um pouco.'

As pessoas mais próximas ajudam muito a que se mantenha focado no tratamento, mas nem sempre é fácil. 'Às vezes desleixo-me um bocado. Isto nunca passa, há é alturas em que se nota menos, especialmente com o sol, que ajuda a disfarçar porque a pele fica mais morena', explica. A doença, garante, não invalida uma vida normal. 'Trabalho, salto, corro', conta.

No entanto, há cuidados, como tapar o corpo o máximo possível, mesmo que isso potencie a discriminação que afirmou estar errada. 'Sei que não o devia fazer e a médica diz que é bom usar camisa de manga curta e calções', diz. Mas mais uma vez o olhar dos outros torna-se castrador.

PERFIL

Hélder Campos, de 31 anos, é escriturário no Hospital da Arrábida, em Vila Nova de Gaia.Há 16 anos começaram a aparecer as primeiras marcas por todo o corpo. Desde então tem travado uma dura batalha contra a doença que, por ser crónica, teima em não desaparecer.

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