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Correio da Manhã

Sociedade
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Médico já foi embora

O médico Franciscus Versteeg, que operou os olhos de quatro pessoas, causando a três delas cegueira irreversível, regressou à Holanda e está a trabalhar na sua clínica em Amstelveen, a Eye-Q-Vision, perto de Amsterdão.
13 de Agosto de 2010 às 00:30
Inspecção de Saúde holandesa já investiga o médico por má prática desde 2008 e pode vir a retirar-lhe a licença
Inspecção de Saúde holandesa já investiga o médico por má prática desde 2008 e pode vir a retirar-lhe a licença FOTO: Luís Silva Pereira

O director clínica I-QMed, de Lagoa, voltou ao seu país depois de ter sido ouvido, ao longo de mais de seis horas, no Centro de Saúde de Lagoa, pela Inspecção Geral das Actividades em Saúde (IGAS) e Autoridade de Saúde local.

Na Holanda, onde também está a ser investigado por alegada má prática em 17 cirurgias a cidadãos holandeses, em Amstelveen (3) e também em Lagoa (14), mantém, aparentemente impávido e sereno, a sua actividade normal. Apesar disso, corre o risco de perder a licença.

Ao que apurou o CM, as duas Inspecções de Saúde – portuguesa e holandesa – "estão em contacto".

Questionado sobre o impacto da existência das referidas queixas, na Holanda, fonte da inspecção de saúde portuguesa frisou que "o processo é muito abrangente e dele nada está excluído".

Ontem, a porta-voz da Inspecção de Saúde holandesa confirmou que a investigação foi desencadeada depois de três doentes que foram operados na Eye-Q-Vision terem apresentado queixa contra o médico "entre 2008 e 2010", por alegada má prática relacionada com cirurgias. O médico pode vir a ser suspenso.

A actividade de Franciscus Versteeg já tinha sido investigada na Holanda, depois de 14 queixas apresentadas por doentes que foram operados por ele em Lagoa, em 2004.

Sobre a infecção de que sofrem os quatro casos de portugueses operados na I-QMed, o médico justificou-se perante a imprensa holandesa com a possível existência de "uma bactéria no líquido de limpeza dos olhos, antes da cirurgia".

A Sociedade Holandesa de Oftalmologia também deverá avaliar a situação do médico.

DOENTES DE 83 E 88 ANOS FORAM ONTEM OPERADOS

Ernesto Barradas, de 83 anos, e uma mulher de 88 anos, dois dos doentes que cegaram após intervenções cirúrgicas às cataratas na clínica de Lagoa I-QMed, foram ontem operados no Hospital dos Capuchos para retirada do olho lesado, apurou o CM. Michael Donovan , 66 anos,foi operado terça-feira e Valdelane Santos, de 35 anos, recuperava ontem de mais uma cirurgia, realizada quarta-feira.

"Ela acredita que ainda vai ver de novo", disse ao CM Josiane Soares, amiga de Valdelane que a visita diariamente. "Ela está mais calma; já não tem tantas dores", adiantou.

Valdelane, mãe de um bebé de três anos e de um adolescente de 15, continuava, ontem, apenas a ser capaz de distinguir o claro do escuro. "É uma situação muito instável: ela pode estar melhor num dia e pior no outro", disse Josiane.

CLÍNICA DE LAGOA AINDA ESTÁ FECHADA

A I-QMed, no Parque Empresarial de Lagoa, continua fechada "e assim se manterá até que as autoridades de saúde portuguesas, que a mandaram fechar, dêem ordem para a sua reabertura", apurou o CM junto de fonte da clínica. A ordem de encerramento foi dada a 27 de Julho e a clínica recebeu a notificação, através da GNR de Lagoa, no dia seguinte.

Entretanto, a I-QMed, que entrou em funcionamento em 2003, continua em obras . Segundo informação disponibilizada no site da clínica, os trabalhos começaram a 24 de Julho, quatro dias depois das cirurgias aos quatro doentes que continuam internados no Hospital dos Capuchos, vítimas de endoftalmite. Em Fevereiro deste ano, a I-Q-Med deu início à implementação de um sistema de qualidade, lê-se ainda no site.

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