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Correio da Manhã

Sociedade
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Médicos aliciados a vender genérico

Convite de laboratório a clínicos infringe a lei em vigor. Simpósio em hotel de luxo prolonga-se por dois dias, mas a componente científica só dura uma hora. Indústria farmacêutica defende punição.
3 de Julho de 2010 às 00:30
Um fim-de-semana num hotel de luxo em Sintra é o convite de um laboratório que quer vender o genérico para tratar a impotência
Um fim-de-semana num hotel de luxo em Sintra é o convite de um laboratório que quer vender o genérico para tratar a impotência FOTO: direitos reservados

Um laboratório está a promover um simpósio, para o fim-de-semana de 10 e 11 de Julho, no Hotel Penha Longa, em Sintra, para divulgar a venda de um genérico para o tratamento da impotência sexual. O convite é considerado pelo sector como um incentivo à prescrição do medicamento, o que constitui uma violação da lei.

O evento decorre sábado e domingo num hotel onde um quarto single custa 185 euros e um duplo 195 euros. A componente científica do simpósio dura apenas uma hora (19h30 às 20h30).

O convite para o simpósio ‘Top Sensations’, ao qual o CM teve acesso, utiliza uma linguagem que viola o Estatuto do Medicamento. No texto pode ler-se: '(...) renda-se aos benefícios para o doente de prescrever uma terapêutica de marca (...)'. Pouco científica é também a mensagem: 'Deixe-se mimar pelos prazeres que preparámos para si.'

O convite é encarado de diversas formas, consoante a profissão dos envolvidos. As associações que representam a indústria farmacêutica e os laboratórios de genéricos defendem a punição das empresas que violam a lei. Já os médicos defendem os genéricos, para benefício dos doentes, e a Ordem dos Médicos considera que a indústria desenvolve um marketing agressivo, mas que cabe aos clínicos decidirem a prescrição.

O urologista Rocha Mendes, presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia, foi um dos convidados a participar no evento. 'Desconheço o conteúdo do simpósio porque o convite foi feito oralmente. Há uma guerra de laboratórios com a qual não tenho nada a ver. Defendo os doentes, que não têm dez euros para comprar um comprimido de marca para a disfunção eréctil e os genéricos são mais baratos.'

Paulo Lilaia, da Associação Portuguesa de Genéricos, defende que 'as empresas devem cumprir a lei e as que não cumprem devem ser punidas'. O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, diz que o 'marketing não está proibido. Os médicos é que têm de analisar os casos e prescrever o que entenderem'.

APONTAMENTOS

INFARMED PROCESSA

O Infarmed instaurou quatro processos de contra-ordenação aos laboratórios, em 2009, na sequência de inspecções.

INCONTACTÁVEL

O CM tentou contactar, sem sucesso, o laboratório que promove o medicamento, Tecnimede.

GESSO DE ANTÓNIO PRETO

O médico Edgar Berdeja foi condenado pela Ordem a pena de censura por engessar o braço do deputado António Preto.

GENÉRICO FOI APROVADO HÁ UM ANO PELO INFARMED

O titular do genérico é o laboratório Tecnimede, Sociedade Técnico-Medicinal e obteve licença da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) a 29 de Maio de 2009 para a venda do genérico, segundo informação que consta do portal do Infarmed. O medicamento tem o nome Sildenafil Siltop e o princípio activo sildenafil. Dois comprimidos custam 15,43 euros e promete fazer concorrência aos três medicamentos para a impotência: Viagra, Cialis e Levitra. Este medicamento é, como os outros, sujeito a receita médica.

 

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