A cirurgia para extracção da vesícula a que a paciente tinha sido sujeita correu normalmente, mas na unidade de cuidados pós-anestésicos tudo se complicou. Colocados perante uma situação crítica e grave, os médicos têm de saber diagnosticar e tratar o problema. A doente é um manequim, mas responde como se de uma paciente de carne e osso se tratasse. Reage à administração de fármacos e tem reflexos. Chora, transpira, tem secreções.
Neste caso, o evento foi provocado por um instrutor do Centro de Simulação Biomédica dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), mas a equipa poderia ver-se confrontada com um caso semelhante na sua prática clínica. Dirigida fundamentalmente ao treino nos chamados eventos críticos e raros, a simulação tem a vantagem de transportar para um cenário fictício a prática real com segurança, porque não há riscos para o ‘doente’.
Privilegia o treino em equipa, permitindo trabalhar "com competências não técnicas como a liderança do grupo e a organização" fundamentais para "a segurança do doente e evitar o erro médico", sublinha Martins Nunes, director do Serviço de Anestesiologia dos HUC e do Centro de Simulação. Após os cenários de simulação, os formandos fazem uma análise do que se passou, do que correu bem e dos pontos a melhorar, repetindo a experiência.
Com três salas de operações e uma de cuidados intensivos, este hospital virtual organizou 60 cursos em 2009 e 86 em 2010, tendo formado 450 médicos e mais de uma centena de enfermeiros, entre outros profissionais.
A constituição, em Outubro, da Sociedade Portuguesa de Simulação Aplicada às Ciências da Saúde, sediada naquele centro, "é um marco muito importante para o desenvolvimento do ensino por simulação médica", refere Martins Nunes, que preside à assembleia geral do novo organismo. Já o presidente Francisco Maia Matos acredita que através da organização "se podem conseguir sinergias internacionais de grande prestígio para o de-senvolvimento da simulação médica portuguesa".
DISCURSO DIRECTO
"MANEQUINS IGUAIS AOS HUMANOS": Martins Nunes, Dir. Serv. Anestesiologia HUC
Correio da Manhã – Que tipo de situações são treinadas no centro?
Martins Nunes – Desde a chegada de multivítimas, um enfarte do miocárdio, o diagnóstico de embolia pulmonar, ou um acidente dentro de um bloco operatório.
– Quais os manequins que têm à disposição?
– São modelos à escala humana e de alta fidelidade que reproduzem praticamente toda a fisiologia humana.
– Quantos são?
– Temos oito de alta fidelidade e alguns mais básicos, para ensino de coisas básicas. Um deles está preparado para ser usado fora do centro. Há um adulto e uma criança que são de topo a nível mundial. Temos também dois recém-nascidos para cursos de emergência em Obstetrícia.
O MEU CASO: MAFALDA MARTINS
"EXPERIÊNCIA ENRIQUECEDORA"
Mafalda Martins, anestesista, fez o curso de simulação biomédica em 2009. "Foi uma experiência extremamente enriquecedora". Além de colocar o médico perante "situações gravíssimas", com as quais tem de aprender a lidar de forma eficaz, a especialista destaca os ensinamentos ao nível do trabalho em equipa. "São aspectos que a formação clássica não ensina e verificamos que a maior parte dos erros ocorre por erro humano e falha do trabalho em equipa". Mafalda dá um exemplo, que ocorre com frequência: o chefe da equipa pede à equipa de enfermagem (formada por três elementos) que execute uma função; cada um dos elementos assume que o outro já fez a tarefa e não é realizada. "Quando faço determinado pedido a um membro da equipa, o outro deve dizer-me que a medicação foi administrada". São aspectos que parecem óbvios, mas, segundo a médica, "falham se não há trabalho de equipa e a maior parte da mortalidade em Medicina ocorre devido a essa falha de comunicação entre a equipa".
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