Na cena da telenovela "Para Sempre", "o povo, a história e a cultura de Castro Laboreiro são objeto de difamação", acusa a autarquia.
Uma cena de um episódio da telenovela "Para Sempre" da TVI, considerada uma "ofensa grave" à população de Castro Laboreiro, em Melgaço, levou a Assembleia Municipal a exigir a uma retratação pública daquele canal, foi divulgado esta segunda-feira.
O pedido de "emissão de um comunicado público" pelo canal generalista do grupo Media Capital, a "repudiar" aquela cena da telenovela, "onde o povo, a história e a cultura de Castro Laboreiro são objeto de difamação", consta de uma moção de repúdio, proposta pelo PS e aprovada por unanimidade, no sábado, em reunião da Assembleia Municipal, tornada pública esta segunda-feira.
Em causa está "uma cena do episódio n.º 115 da telenovela 'Para Sempre', transmitido no dia 20 de abril pela TVI, e cujas gravações decorrem parcialmente no Minho".
"A cena em causa, interpretada por diversas personagens, decorre de um diálogo que ocorre numa mercearia fictícia localizada na vila do Soajo, onde os habitantes de Castro Laboreiro são acusados do furto de uma viatura e onde, para além do mais, são apelidados de ladrões, bandalhos, manhosos, entre outros epítetos, e onde é feita a insinuação de que a raça do cão de Castro Laboreiro resulta de uma apropriação ilegítima dos cães Sabujos da Serra do Soajo", destaca a moção.
Segundo a moção aprovada pela Assembleia Municipal de Melgaço, "os diálogos transmitidos na novela de ficção (...) constituem uma ofensa grave à tradição e cultura de Castro Laboreiro, afetando o bom nome e reputação das suas gentes".
O "conteúdo da cena do episódio em causa distorce, de modo grave, a origem, classificação e reconhecimento público da raça canina do cão de Castro Laboreiro" e "o contexto, tom e conteúdo da cena televisa em causa provocaram uma indignação generalizada da população de Castro Laboreiro, que compreensivelmente se sentiu insultada e ultrajada".
Apesar de admitir que se trata de "uma obra de ficção e que, por isso, a margem de liberdade criativa é bastante ampla", na moção a Assembleia Municipal de Melgaço refere "desconhecer os motivos do autor do texto/guionista ou o conhecimento que o mesmo tem sobre a história e cultura castrejas".
"O contexto, o tom e o conteúdo dos referidos diálogos, para além de relevarem um profundo desconhecimento e ignorância da cultura de Castro Laboreiro, atentam contra os mais básicos princípios de ética e de respeito por uma comunidade com uma história e tradição ímpares da nossa cultura e território", realça o documento.
Castro Laboreiro "é uma região cuja ocupação humana é comprovável até ao longo passado de quatro ou cinco mil anos, tendo-se aqui desenvolvido sucessivamente duas grandes culturas que atingiram um grau elevado de civilização: a cultura dolmética e a cultura castreja, onde ainda hoje [2 de maio] são visíveis inúmeros vestígios".
A população de Castro Laboreiro "é justamente conhecida pela sua integridade, caráter, honradez e espírito de sacrifício e colaboração".
Já sobre a origem e características dos cães de raça Castro Laboreiro e Sabujo, destaca a moção que "são totalmente distintas, possuindo características genéticas, morfológicas e funcionais que não admitem qualquer controvérsia ou erro de identificação".
O cão de Castro Laboreiro "é uma das raças caninas mais antigas da Península Ibérica, sendo uma das onze raças com estadão, reconhecidas em Portugal". "Trata-se de um cão de guarda tipo mastim, enquanto o Sabujo é um cão de caça, de faro por excelência, usado em matilha ou à trela para farejar rastos de odor ou sangue de caça grossa", explica o documento.
"Só mesmo por desconhecimento, ignorância ou algum propósito difamatório, se pode pretender confundir a comunidade acerca da origem ou identidade destas espécies caninas, ainda que no contexto de uma obra de ficção", sustenta.
Além da TVI, a moção será enviada à Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM), à Associação Portuguesa do cão de Castro Laboreiro, à Câmara Municipal de Melgaço e à União das Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas do Mouro.
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