Portugueses são dos que mais gastam com medicamentos, apesar de ganharem menos. Muitos remédios são aprovados mas não entram no mercado.
Melhorar o acesso dos utentes aos medicamentos poderia evitar 1577 mortes por ano. Esta é uma das conclusões da primeira edição do Index da Equidade de Acesso ao Medicamento, da Associação Portuguesa de Medicamentos pela Equidade em Saúde (EQUALMED), desenvolvido pela IQVIA. O índex revela que entre 2022 e 2025 o nível de equidade de acesso ao medicamento dos portugueses foi moderado, abaixo do registo dos países de referência na definição de preço dos medicamentos: Espanha, Itália, França e Bélgica. Este resultado está relacionado a um menor número de anos de vida com saúde. O aumento no Índex poderia traduzir-se “em pelo menos mais um ano de vida com qualidade”, refere a EQUALMED, estimando-se que num ano 1577 mortes por patologias tratáveis poderiam ser evitadas caso Portugal tivesse um nível de equidade semelhante ao de França.
Um dos exemplos de que os medicamentos ainda pesam muito na carteira dos portugueses está na despesa média anual por pessoa com remédios: 148,3 euros em Portugal, para um salário médio anual de 20451 euros. Os franceses gastam em média 72,7 euros por ano em medicamentos e ganham quase 45 mil euros. Ou seja, em França gasta-se em medicamentos metade do que em Portugal e os vencimentos são mais do dobro. Por isso, não é de estranhar que Portugal (e Itália) sejam os países com maior percentagem de população a reportar dificuldades em suportar o custo com medicamentos: 16,1% e 17,4%, respetivamente. Do lado oposto, estão os franceses: apenas 4 em cada 100 afirmam ter dificuldades com a compra de remédios.
No gasto do País com medicamentos, per capita, Portugal é o que menos gasta: 183,5 euros por pessoa, muito abaixo dos 509,4 euros de França. Dados que podem “refletir restrições de acesso e comprometer os resultados em saúde”, alerta o estudo.
Cerca de um terço das Autorizações de Introdução no Mercado “não resultaram em comercialização efetiva, incluindo medicamentos críticos, o que limita o acesso real dos doentes”, refere o trabalho da EQUALMED.
Pela positiva, Portugal é o país que mais rápido aprova o financiamento de medicamentos genéricos e biossimilares: 30 dias, muito abaixo dos 135 dias de França e Bélgica.
SAIBA MAIS
Regras de comparticipação
Uma das recomendações da EQUALMED é a revisão das regras de comparticipação dos medicamentos, “que estabeleça escalões diferenciados conforme rendimentos e condições clínicas”. A política de preços deve “privilegiar a acessibilidade dos medicamentos essenciais”, sem sobrecarregar as famílias.
Mais genéricos
A EQUALMED considera necessário estimular a produção de genéricos e biossimilares em Portugal, “aumentando a disponibilidade de medicamentos críticos”.
Diferenças regionais
No contexto regional, é no Alentejo que se verifica os piores valores na equidade de acesso ao medicamento, seguido pelo Oeste e Vale do Tejo e pelos Açores. A Grande Lisboa é a região onde há mais equidade no acesso aos remédios.
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