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Correio da Manhã

Sociedade
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“Morre-se mais rápido em Portugal”

"Morre-se mais depressa em Portugal com cancro do pulmão por falta de dinheiro”, disse ao CM António Araújo, médico no IPO do Porto e no Hospital da Feira, que está a participar no primeiro rastreio europeu ao cancro do pulmão que poderá ajudar a dar força estatística a esta convicção do especialista.
25 de Outubro de 2009 às 00:30
Quimioterapia continua a ser, juntamente com a radioterapia, o tratamento mais frequentemente utilizado no combate a esta doença. Ainda assim, os meios são insuficientes para a nossa realidade.
Quimioterapia continua a ser, juntamente com a radioterapia, o tratamento mais frequentemente utilizado no combate a esta doença. Ainda assim, os meios são insuficientes para a nossa realidade. FOTO: Rui Manuel Fonseca

O objectivo desta investigação passa por saber como a doença tem evoluído do ponto de vista clínico, caracterizando o doente na altura do diagnóstico e como é tratado. Dentro de ano e meio surgirão as primeiras respostas.

António Araújo justifica a acusação com a “obsessão economicista” do Infarmed, que não permite que novos fármacos cheguem com celeridade aos doentes. “Não aprovam novos medicamentos há dois anos e, como é lógico, isso coloca-nos problemas e constrangimentos. Não querem gastar mais dinheiro”, sustentou o clínico.

A mesma fonte especifica: “Tenho um tratamento que, vamos supor, custa mil euros e outro que custa dois mil a 2500, mas dá ao doente entre 14 a 16 meses de vida,  em média. Isto para o Infarmed é apenas uma conta de somar, daí as restrições que há.”

O especialista afirma que o Ministério da Saúde está cada vez  mais alerta para as necessidades destes doentes, mas ainda assim lança a crítica. “A doença oncológica é encarada como fatal. E os nossos decisores, muitas vezes, pensam que, se a pessoa vai morrer, não vale a pena apostar. Não é fácil trabalhar assim todos os dias.”

A aposta financeira está na linha da frente do discurso do médico. “Estamos a gastar pouco com o cancro se compararmos com doenças cardiovasculares. Apesar de serem a primeira causa de morte em Portugal, em termos de carga social é muito semelhante ao cancro. Mas gastamos mais do dobro nas doenças cardiovasculares”, revelou.

Há ainda outros défices no tratamento do cancro do pulmão. A falta de cuidados paliativos especializados é a mais premente. “Temos uma falha ainda importante ao nível dos Cuidados Paliativos, já há alguns destinados especificamente a doentes oncológicos, mas não é prática generalizada”, especificou António Araújo. Verifica-se que em muitos lugares do País há uma cobertura muito diminuta. “Estes doentes são muito específicos e evoluem muito rapidamente. É preciso agir o mais rapidamente possível. Isso de maneira geral não se passa porque demora muito tempo a dar seguimento aos pedidos”, sustentou.

DISCURSO DIRECTO

'HÁ 3500 NOVOS CASOS EM CADA ANO EM PORTUGAL', António Araújo, Médico especialista no IPO do Porto

Correio da Manhã – Como é que tem evoluído a doença no nosso país?

António Araújo – O crescimento tem sido gradual. Há 3500 novos casos por ano, desses há dois grandes grupos: o carcinoma do pulmão de não-pequenas células, que corresponde a 85 por cento dos casos, e 15 por cento do tipo pequenas células.

– Qual a esperança média de vida destes doentes?

– O grosso dos doentes, 60 por cento, apresenta-se no estádio quatro [o mais grave]. O prognóstico logo à partida é mau. Tem uma esperança média de vida em média de 14 a 16 meses, na melhor das hipóteses.

– E nos casos menos graves?

– Em casos mais precoces, com o que temos de radioterapia, cirurgia e quimioterapia, conseguimos estender a sobrevida para os cinco anos, o que para nós é muito bom.

– O cancro do pulmão atinge mais homens ou mulheres?

– Não há diferenças substanciais. Em Portugal, a tendência ainda é crescente em ambos os sexos.

'JÁ VI MÉDICOS A CHORAR'

A especialidade de Oncologia médica é a que mais desistências regista, pelo forte fardo psicológico. ' Já vi vários médicos internos de especialidade a chorarem à frente de doentes, porque a faceta humana desta especialidade vai-nos tocar, quer queiramos quer não', disse ao CM António Araújo. O especialista defende que os clínicos acabam por arranjar mecanismo de defesa. 'Não é fácil fazê-lo, porque é muito complicado ver pessoas a morrer tão cedo e com uma vida pela frente. Muitos morrem em sofrimento', acrescentou.

PORMENORES

ESTUDO

Este é um grande estudo a nível europeu que vai englobar dois mil doentes, dos quais cerca de cem são nacionais. Em Portugal, incidirá em cinco centros: IPO Porto, Hospital de Gaia, Hospital da Feira, Hospital de Ponta Delgada e Hospital de Santa Maria.

BUROCRACIA

O Infarmed dá resposta a todos os pedidos oficiais no espaço de 15 dias. 'Esse pedido requer o preenchimento de um requerimento de duas páginas, a realização de um relatório com a informação do doente e um pedido de autorização especial e anexar bibliografia necessária para justificar', sustenta António Araújo.

POUCOS GASTOS

António Araújo fez um estudo e em termos de gastos per capita, no cancro do pulmão, estamos ao nível da Hungria, República Checa e Polónia, ou seja, na cauda da Europa.

O MEU CASO: PAUL NEWMAN

DISCRETO ATÉ À ÚLTIMA HORA

Galã e ícone cinematográfico, Paul Newman está no imaginário de todos pelo charme e pela classe com que desempenhava os seus papéis. Reconhecido por uma longa e prolífica carreira em Hollywood, o protagonista de ‘Dois Homens e um Destino’ ou ‘A Cor do Dinheiro’ – com o qual ganhou um Óscar da Academia em 1986 – faleceu na sua casa de campo, vítima de cancro do pulmão, quando tinha 83 anos.

'Morreu de forma tão privada e discreta como sempre viveu – um artista humilde sem mania das grandezas, rodeado pela sua querida família e pelos amigos mais próximos', afirmou em comunicado o representante de Paul Newman, na altura da sua morte, há um ano.

Desde 2007 que Newman sabia que estava doente, o que o terá levado, inclusive, a desistir da realização do filme ‘Of Mice and Men’.

'Sabemos que ele está gravemente doente há várias semanas mas os seus parentes mais próximos têm sido muito protectores e têm dito muito pouco', afirmou, na época, um amigo do actor ao jornal ‘National Enquire’.

O actor era um ex--fumador inveterado e a patologia foi-lhe diagnosticada pelo hospital Sloan-Kettering Cancer Centre, em Nova Iorque. Tentou sempre esconder a doença – tendo sido visto com uma longa barba que usava como disfarce para não ser reconhecido – e chegou a negá-la.

Newman tinha três filhas com Joanne Woodward, com quem foi casado durante 40 anos, e outras duas de seu primeiro casamento com Jackie White.

PERFIL

Paul Newman nasceu em 1925 no Ohio, EUA, e morreu aos 83 anos no Estado de Connecticut. Actuou em cerca de 60 filmes. Recebeu nove nomeações para o Óscar, mas só levou a estatueta de melhor actor em 1986, pelo filme ‘A Cor do Dinheiro’. 

ABAIXO DA MÉDIA

Portugal está abaixo da média europeia no que diz respeito à prevalência da doença, muito longe da Espanha

TABACO PREJUDICIAL

O tabaco continua a ser a principal causa da doença. O consumo no nosso país é dos mais baixos da Europa

MEDICAMENTO

Os hospitais apenas podem fazer crescer, anualmente, cinco por cento o seu investimento em medicamentos

CANCRO DO PULMÃO

DIAGNÓSTICO

Para haver um diagnóstico precoce é necessário existir um período prévio de exposição à substância tóxica. As células do sistema respiratório irão então sofrer alterações, passando por várias fases, até ao aparecimento do cancro.

Exames com raio-x ao tórax, a tomografia computadorizada aos pulmões e o exame das células da expectoração podem diagnosticar este tipo de cancro.

FACTORES DE RISCO

Fumo

A maioria das pessoas que têm cancro do pulmão fuma ou é ex-fumadora. Também os fumadores passivos - expostos ao fumo dos outros - fazem parte da população mais afectada por esta doença.

Outras substâncias

Exposição ao amianto ou a outros tipos de radiação como, por exemplo, as que resultam da degradação da substância rádio. 

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