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Correio da Manhã

Sociedade
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Mutilação genital feminina denunciada no Vale da Amoreira

O tema é tabu. As histórias contam-se sem dizer nomes mas têm data recente: a Associação de Imigrantes Guineenses e Amigos do Sul do Tejo diz que no Vale da Amoreira, na Moita, há meninas a sofrer mutilação genital.
7 de Agosto de 2011 às 09:58
Aspecto de um prédio de habitação no Vale da Amoreira. Neste bairro vivem mais de 12 mil pessoas
Aspecto de um prédio de habitação no Vale da Amoreira. Neste bairro vivem mais de 12 mil pessoas FOTO: Pedro Catarino / Correio da Manhã

A associação (AIGAST) trabalha há dez anos para responder às necessidades da população do Vale da Amoreira, onde vivem mais de 12 mil pessoas – 30 por cento, estima-se, originárias da Guiné. O bairro é cinzento, pobre e tem um número elevado de desempregados.

Em declarações à Lusa, Susana Piegas, da AIGAST, afirma que a mutilação genital feminina (MGF) "é uma questão muito presente" nos dias do bairro e assegura que "os números reais da prática da excisão de meninas – que ninguém consegue contabilizar – são avassaladores".

"Identificamos na nossa comunidade pessoas que levaram a cabo a prática e outras que pretendem fazê-lo. Aqui há famílias em que todas as mulheres foram excisadas. Tivemos, por exemplo, há uns meses, conhecimento de que três meninas da mesma família foram mutiladas aqui no bairro e sabemos de outras que vão à Guiné para cumprir esse ritual", acrescenta.

Rosa Tavares, guineense, é também membro da AIGAST e coordena o departamento de saúde da associação. Conta que é casada com um muçulmano e que impediu que a sua filha fosse mutilada. Sobre a situação que se vive no bairro, acrescenta "o problema" de "haver muitas pessoas a ganhar dinheiro com a prática da MGF". Não diz quanto pode custar fazê-lo no Vale da Amoreira, mas afirma que a prática "gera muito dinheiro".

Susana Piegas explica que a AIGAST quer "ajudar a combater este flagelo", mas considera que "isso só pode ser feito informando, sensibilizando, trabalhando na prevenção".

"Queremos trabalhar junto da comunidade para desmistificar estas tradições intergeracionais. Temos dado alguns passos nesse sentido mas precisamos de mais recursos. O trabalho exige investimento e demora tempo a dar frutos, mas tem que ser feito. É preciso inverter esta situação", argumenta.

A mutilação genital feminina é reconhecida internacionalmente como uma grave violação dos direitos humanos. A Organização Mundial de Saúde estima que mais de 140 milhões de mulheres, raparigas e meninas tenham sido já submetidas a esta prática e que cerca de três milhões se encontrem todos os anos em risco. Embora a prática ocorra sobretudo em países africanos, tem sido importada por comunidades imigrantes para a Europa, onde o Parlamento Europeu estima que vivam cerca de 500 mil mulheres e jovens mutiladas e 180 mil em risco anualmente.

No início deste ano, a propósito do Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, que se assinala a 6 de Fevereiro, o Governo apresentou o II Programa de Acção para a Eliminação da Mutilação Genital Feminina (2011-2013) para "promover uma mudança de valores culturais" e "reforçar as medidas de prevenção".

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