Desde que foram detetados casos de doença no país verificaram-se vários picos de mortalidade, mas a maioria não foi provocada pela doença, que neste período é responsável por 1.822 óbitos, o equivalente a 29% deste excedente de mortalidade.
Entre 2 de março, a data em que foram diagnosticados em Portugal os primeiros casos de Covid-19, e 31 de Agosto morreram em Portugal 57.971 pessoas. Foram mais 6.312 do que a média deste mesmo período nos últimos cinco anos e destas mortes só 1.822 são devidas à doença provocada pelo novo coronavírus, o equivalente a uma fatia de 29%.
Os números do INE vêm ao encontro do que o Negócios já escreveu sobre o acréscimo de mortes em Portugal. Só no mês de agosto por exemplo, a covid-19 explica apenas 18% do aumento de mortes face aos cinco anos anteriores. Esta é uma tendência que vem de trás, desde março que a mortalidade tem estado sempre acima da média do período homólogo entre 2015 e 2019. Em março, a doença explicou 29% do acréscimo de mortes face à média dos cinco anos anteriores e em abril a percentagem atingiu um máximo de 54%. Depois baixou ligeiramente para 45% em maio, 44% em junho (esta percentagem desceria para 27% se fosse considerada a média dos 10 anos anteriores) e apenas 7% em julho. A fortíssima queda em julho deveu-se a um aumento anormal do número de mortes resultante da onda de calor que já não se repetiu em agosto.
Os dados foram avançados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística, segundo o qual o aumento do número de óbitos registou um pico na semana de 6 a 12 de abril tendo depois começado a reduzir-se até ao início de maio, data em que terminou o período do estado de emergência.
No final de maio as estatísticas revelam novo pico, que em junho desapareceu, voltando os números da mortalidade às médias de anos anteriores, mas foi em julho, na semana entre 13 e 19 desse mês que a sobremortalidade face à média atingiu o máximo tendo-se registado um excedente de mortalidade de cerca de 800 óbitos, refere o INE. Um número "ao qual não será sido alheio o facto de o mês de julho de 2020 ter sido um mês extremamente quente e com ondas de calor", explicação, aliás, já sugerida também pela Direção-Geral de Saúde (DGS) e pelo Instituto Ricardo Jorge. Nas últimas semanas, pelo contrário, assistiu-se a uma redução do aumento do número de óbitos.
Se é certo que, como sublinha o INE, "o acréscimo da mortalidade, verificado a partir de março, relativamente à média dos últimos cinco anos é explicado apenas em parte pelos óbitos covid-19", as estatísticas não revelam quais foram as causas que justificaram estas mortes a mais face às médias dos últimos anos. Mas também não revelam, até porque tal seria impossível, quantas pessoas teriam morrido por covid-19 se não tivesse sido declarado o estado de emergência e tomadas todas as medidas de prevenção. Refira-se que a informação sobre as causas de morte é responsabilidade da DGS, que não tem ainda dados para 2020.
Idosos, mulheres e mais mortes em casa
Se é certo que foi entre os idosos que se verificou o maior número de mortes por covid-19, foi também entre os mais velhos que mais mortes aconteceram durante este período de tempo analisado pelo INE. Mais de 70% das mortes registadas foram de pessoas com idades iguais ou superiores a 75 anos. Olhando, mais uma vez, para as médias em período homólogo no período entre 2015 e 2019, verifica-se que morreram mais 5.518 pessoas com 75 e mais anos, das quais mais 4.371 com 85 e mais anos.
E os dados das mortes por covid, segundo a DGS, apontam também para que a grande percentagem seja de pessoas acima dos 70 anos e, sobretudo, com 80 ou mais anos, mas os números dos totais são bastante mais baixos: ao todo foram 1.637 as mortes nestas faixa etárias, cerca de 87% do total.
Fica também a saber-se que durante estes meses, em que se incluiu o período de confinamento e em que as idas a hospitais foram limitadas, morreram mais pessoas em casa. Assim, e embora a maior proporção de óbitos tenha sempre ocorrido em estabelecimento hospitalar, verifica-se que a proporção de óbitos em domicílio e outro local foi, a partir de 2 de março, superior à média de 2015-2019. Na semana de 16 a 23 de março, em pleno confinamento, 46,1% das mortes ocorreram em casa ou noutro local que não o hospital.
Separando os óbitos por género, as estatísticas revelam neste período de seis meses ocorreram 28.400 óbitos de homens e 29.391 de mulheres, mais 2 597 e 3 715 óbitos, respetivamente, em relação à média. Olhando para as estatísticas de covid-19, das 1.888 vítimas registadas até ontem, 17 de setembro, 952 eram homens e 936 mulheres.
Tendência diferente dos vizinhos europeus
O INE foi também olhar para os dados reportados ao Eurostat everificou que os números portugueses não estão em linha com o verificado nos outros países europeus. Estes, depois de registarem nas primeiras semanas de 2020 uma mortalidade inferior à média de 2016-2018 (não foi possível incluir 2015 na comparação), começaram também a ter um número significativo de aumento de óbitos a partir do início de março, atingindo um pico na semana de 30 de março a 5 de abril, com 44% mais de óbitos do que nas mesmas semanas de 2016-2019.
Até essa altura a evolução era semelhante à verificada em Portugal, mas nas semanas seguintes a mortalidade na Europa aproximou-se da média, enquanto que em Portugal, apesar de um período inicial caracterizado pela redução da sobremortalidade, esta voltou a aumentar, continuando a manter-se afastada da média até à semana de 1 a 7 de junho.
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