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Organizações europeias alertam para ataque a direitos trans e intersexo em Portugal

Organizações de defesa dos direitos LGBTI+ manifestaram "profunda preocupação" com as propostas em debate no parlamento.

18 de março de 2026 às 16:50

Várias organizações europeias de defesa dos direitos das pessoas LGBTI+ manifestaram esta quarta-feira "profunda preocupação" com as propostas sobre identidade de género em debate no parlamento que acusam de representar "um grave ataque" aos direitos das pessoas trans e intersexo.

Num comunicado conjunto divulgado na página da Ilga Europa, as várias organizações, entre as quais IGLYO, OII Europe, TGEU, EL*C e Bi+ Equal, manifestaram "profunda preocupação" com três projetos de lei que serão debatidos na quinta-feira e votados na sexta-feira na Assembleia da República.

Segundo estas entidades, as propostas poderão "abrir caminho a retrocessos" no reconhecimento legal do género, na autonomia corporal e em outras proteções atualmente garantidas a pessoas trans e intersexo em Portugal.

As organizações consideram que as iniciativas representam "um ataque sério aos direitos, dignidade, segurança e autonomia corporal" destas pessoas, podendo inverter progressos alcançados desde a aprovação da lei de 2018, baseada na autodeterminação da identidade de género.

De acordo com o comunicado, a aprovação dos diplomas poderá levar Portugal a descer pelo menos quatro posições no índice "Rainbow Map" da ILGA-Europe, ficando abaixo de países como Suécia, Países Baixos, Irlanda e França.

As propostas em discussão preveem, entre outras alterações, o regresso à exigência de critérios médicos para o reconhecimento legal da identidade de género, o que as organizações classificam como uma forma de "patologização" e um recuo para o enquadramento legal de 2011.

Está também prevista a restrição do reconhecimento legal para jovens entre os 16 e os 18 anos, bem como a proibição de cuidados de saúde de afirmação de género para menores.

Segundo as organizações, as medidas poderão ainda retirar proteção a pessoas cuja identidade de género não corresponde aos documentos oficiais, incluindo jovens, migrantes e pessoas não-binárias, além de eliminar medidas de promoção da não discriminação em contexto escolar.

No caso das pessoas intersexo, alertam para o risco de eliminação de salvaguardas contra intervenções médicas não consentidas e desnecessárias, atualmente proibidas pela legislação em vigor.

As entidades consideram que estas propostas assentam em "narrativas prejudiciais" que tratam pessoas trans e intersexo como um problema a controlar, em vez de titulares de direitos fundamentais.

O comunicado enquadra ainda a situação portuguesa numa tendência mais ampla na Europa, apontando para iniciativas semelhantes noutros países, onde questões como "sexo biológico", "proteção da família" e "proteção das crianças" têm sido usadas para justificar restrições de direitos.

As organizações apelam aos deputados portugueses para rejeitarem integralmente os projetos de lei, defendendo que Portugal não deve integrar a lista de países onde pessoas trans e intersexo são alvo de disputas políticas que fragilizam direitos democráticos.

O debate dos projetos de lei está agendado para quinta-feira no parlamento.

Os deputados vão discutir iniciativas do Chega, CDS-PP e PSD que visam revogar ou alterar a Lei n.º 38/2018, que consagra a autodeterminação da identidade e expressão de género.

O PSD propõe a revogação da legislação de 2018 e o regresso ao regime de 2011, reintroduzindo a obrigatoriedade de validação médica para a mudança de nome e género no registo civil.

O Chega pretende alterar os procedimentos de alteração de nome e género, invocando a "proteção das crianças e jovens", enquanto o CDS-PP defende a proibição de bloqueadores da puberdade e de terapias hormonais em menores de 18 anos, no âmbito do tratamento da disforia de género.

Em sentido oposto, o Bloco de Esquerda apresentou um quarto projeto, que propõe o reforço da lei atual e estabelece um quadro jurídico para a sua aplicação.

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