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Pais devem acompanhar os filhos

Aproxima-se o primeiro dia de aulas que, para milhares de crianças, é sinónimo de grande ansiedade. A entrada para o 1º ano de escolaridade é verdadeiramente a primeira fase de separação entre as crianças e a família, o que pode originar vários problemas comportamentais e psicológicos, que exigem uma atenção redobrada e intervenção precoce. As que frequentaram jardins-de-infância não terão tantas dificuldades.

01 de setembro de 2009 às 00:30

“O 1º Ciclo é um marcador importante do percurso de vida das crianças. Se os momentos de inserção correrem bem vão marcar profundamente a criança, criando potencialidades para que a sua vida seja bem-sucedida. Se houver algum problema que não seja resolvido, pode gerar dificuldades, que precisam de acompanhamento técnico”, explica o psicólogo José Carlos Garrucho.

A fase de adaptação às novas exigências da escola nem sempre é bem-sucedida, já que o excesso de horas na escola e a sobrecarga de trabalhos de casa levam a uma drástica limitação do tempo dedicado a actividades lúdicas.

“Os trabalhos para casa são um instrumento controverso no processo de ensino, porque as crianças já passam horas a mais na escola e têm pouco tempo para brincar”, refere José Carlos Garrucho. Como tal, a solução poderia passar pela diminuição do tempo de aulas, de modo a se desenvolver a “autonomia na organização das suas brincadeiras”, já que “a boa aprendizagem é aquela que nos dá prazer”.

Apesar de considerar que “os  trabalhos de casa são mais do mesmo do que já se faz na escola”, o psicólogo garante existirem algumas vantagens. “A família pode participar nessa tarefa. Muitas vezes é difícil compatibilizar isso com o seu ritmo diário, mas cabe-lhe ‘negociar’ com a escola”.

A transferência para outros estabelecimentos de ensino e a passagem de ciclo – principalmente do 1º para o 2º – podem também potenciar problemas de ansiedade e de stress. O afastamento de amigos e professores é encarado como um processo doloroso para a maioria das crianças, que se sentem desamparadas, num ambiente hostil. “Tudo o que é novo provoca ansiedade e pode mesmo levar à angústia. Se existir uma grande vinculação aos amigos, a  adaptação é muito mais complicada. Logo a seguir à família, o suporte das crianças é a sua rede de amigos”, explica o clínico.

O acompanhamento da família é por isso essencial nos primeiros anos de escolaridade. A escola “tenderá a funcionar melhor se a família a valorizar como um instrumento de preparação dos seus filhos”.

DICAS PARA PAIS E FILHOS

EXPLICAÇÃO: OS PAIS DEVEM SER VERDADEIROS

José Carlos Garrucho, psicólogo de família, aconselha os pais a serem verdadeiros para com os seus filhos, explicando-lhes que não os irão abandonar e que a escola “não é nenhum papão”.

PROXIMIDADE: A FAMÍLIA TEM DE MOSTRAR INTERESSE

Em situações de mudança, a criança está mais vulnerável e o apoio da família é fundamental. Os pais devem ouvir a criança, mostrar interesse pelas suas experiências, de modo a resolverem as dúvidas.

AJUDA: PAIS PODEM PEDIR AJUDA NAS ESCOLAS

As famílias com crianças que dão sinais de angústia na escola devem dirigir-se ao professor responsável do ano lectivo e pedir ajuda especializada, para que a disfuncionalidade seja rapidamente resolvida.

ESCOLA: LEVAR CRIANÇAS A CONHECER ESCOLA

Levar os filhos a conhecer a escola alguns dias antes do início das aulas poderá ser uma boa forma de diminuir a ansiedade das crianças Ao mostrar-lhe as instalações, estas irão  sentir-se mais integrados.

INFANTÁRIO PREPARA CRIANÇAS

Os alunos que frequentaram o jardim-de-infância ou infantário antes de entrarem para o 1º Ciclo tendem a estar mais preparados para as mudanças. A sua integração é portanto mais fácil e menos dolorosa, uma vez que o contacto prévio com outras crianças e educadores já os preparou, de alguma forma, para as novas exigências. 

De uma forma ligeira e divertida, as crianças vão aprendendo novas tarefas, ao mesmo tempo que desenvolvem a socialização e a integração das regras, horários e rotinas. “No jardim-de-infância as crianças vão aprendendo alguns pré-requisitos, mas de forma muito ligeira, muitas vezes de acordo com os seus gostos”, explica José Carlos Garrucho, psicólogo especializado na área da família.

Assim, é fundamental que os pais estimulem os filhos, explicando-lhes a importância  da escola, para que estes desenvolvam a auto-estima e a confiança necessárias para uma boa integração.

“ABDICÁMOS DAS FÉRIAS”

Para quem tem dois filhos na escola torna-se “complicado gerir as despesas” dos livros e dos materiais escolares quando se aproxima o início de mais um ano lectivo. A família Ribeiro, natural de Santo António das Areias, Marvão, não é excepção. “Queremos dar aos nossos filhos as condições necessárias para o novo ano e para isso tivemos de abdicar das férias”, conta a mãe, Teresa Ribeiro, que admite fazer algumas contenções orçamentais nesta época do ano.

Os manuais escolares de Maria Ribeiro, a filha mais nova, que vai para o 5º ano do Ensino Básico, custaram mais de 200 euros. Os livros de António, que passou para o 10º, rondam a mesma quantia. “É um grande rombo no orçamento familiar, os livros são a maior despesa, mas depois ainda gastámos cerca de 150 euros em material escolar”, refere o pai, Antero.

“Por vezes compramos livros que nem são utilizados, como Educação Física ou Moral”, lamenta a mãe dos dois estudantes.

“Os sacrifícios acontecem ao longo de todo o ano, mas agora em especial, e ainda não estão incluídas as despesas com a alimentação e material que os professores vão pedir. É muito caro ter dois filhos a estudar”, acrescenta.

DISCURSO DIRECTO

“POSITIVA A COMPETÊNCIA E O BRIO PROFISSIONAL", D. Januário Teixeira, Bispo das Forças Armadas, 71 anos

Correio da Manhã – O que recorda do seu 1.º dia de aulas?

D. Januário – Recordo um professor que tinha uma competência única, do ponto de vista pedagógico. Tinha o cuidado terno, carinhoso, lúdico, próximo, que uma criança de seis anos, agarrada às saias da mãe, não esperava.

– Quais os momentos mais importantes vividos na escola?

– Do ponto de vista negativo, um professor que utilizava estupidamente como método de aprendizagem o correctivo, a palmatória. No positivo, a capacidade de competência e o brio profissional. E as chamadas actividades extra: teatro, o orfeão de música.

– Que professor o marcou mais?

– Paul Ricoeur, reitor da Universidade de Nanterre, em Paris, onde fiz o seminário livre. Tinha um saber infinito, liberdade, métodos. Os alunos sentiam a obrigação de provar que tinham lido os livros. Tinha espírito de colega.

NOTAS

INÍCIO: ANO LECTIVO

Os ensinos Básico e secundário iniciam as actividades lectivas entre os dias 10 e 15. Cabe a cada escola definir a data exacta para o começo das aulas, em função da preparação e dos alunos.

1.ª CLASSE: MAIS DE 120 MIL

Do universo de cerca de 1,6 milhões de alunos, do Básico e Secundário, mais de 120 mil são crianças que estudam no 1.º ano de escolaridade e que entram na escola pela primeira vez.

PAIS: TENTAM PROTEGER

O começo das aulas leva a que muitos pais temam a não adaptaçãodos seus filhos à escola. Mais do que acompanhar as suas conquistas, a família deve fortalecer a auto-estima da criança.

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