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País "tem uma cara diferente" fruto da limpeza dos terrenos

Xavier Viegas, investigador na área dos incêndios, considera que o país "tem uma cara diferente", com as ações de sensibilização a darem fruto no que diz respeito à limpeza dos terrenos junto a casas e vias.
Tânia Rei 23 de Janeiro de 2020 às 20:06
País 'tem uma cara diferente' fruto da limpeza dos terrenos
País 'tem uma cara diferente' fruto da limpeza dos terrenos
País 'tem uma cara diferente' fruto da limpeza dos terrenos
País 'tem uma cara diferente' fruto da limpeza dos terrenos
País 'tem uma cara diferente' fruto da limpeza dos terrenos
País 'tem uma cara diferente' fruto da limpeza dos terrenos

"Nota-se que o país tem uma cara diferente", considera o investigador na área dos incêndios Xavier Viegas, que esteve presente no primeiro dia do seminário sobre Incêndios Rurais, organizado pelo Instituto Politécnico de Bragança:"Quem vive onde haja convivência com floresta, nota que há muita mais limpeza junto das casas e nas vias. Houve um trabalho que foi feito, e criou-se essa sensibilização, não sei se também por força da ameaça das coimas, mas o que é um facto que se nota que o país tem uma cara diferente", disse aos jornalistas à margem da sessão.

O investigador, que integrou a comissão independente aos fogos de Pedrógão Grande, de 2017, considera que é "uma parte do muito que há a fazer", mas que é prioritária, na defesa das pessoas "junto às suas casas e das suas vidas". Contudo, há mais a fazer:"Nomeadamente o trabalho da defesa estrutural das faixas e da gestão das florestais, que estão planeadas e há muitos anos previstas, mas que não estão realizadas. É uma das coisas que falta fazer", salientou.

No distrito de Bragança, esta mudança sente-se no terreno.Em 2019, no âmbito do programa Floresta Segura, foram feitas cerca de 500 notificações para limpeza de terrenos, junto a casas ou vias, e só cerca de uma centena chegaram a ser auto de contraordenação:"Há sempre resistência em mudar os hábitos. Principalmente aqui no nosso distrito, acho que as pessoas querem é ter informação. Às vezes não fazem melhor porque falta-lhes isso. Sempre fizeram [da mesma forma], já no tempo dos seus avós, que tinham uma forma de trabalhar. Têm-se que se adaptar. O trabalho tem sido bastante profícuo", salienta Carlos Felizardo, comandante distrital de Bragança da Guarda Nacional Republicana.

O comandante que explica como se vão processar estas ações nos próximos meses: "Já estamos a fazer o planeamento de ações de sensibilização, que é fundamental, para ir ao encontro das pessoas, explicar-lhes o que é que elas têm que fazer e as preocupações delas. Mais à frente, vamos passar por todas as áreas identificadas como prioritárias para a fiscalização".

A prevenção que tem sido prioridade nos agentes de Proteção Civil:"Houve um esforço muito grande, após o ano trágico de 2017, em que se fez uma série de ações, incluindo o programa Aldeia Seguras, Pessoas Seguras, com um forte investimento na proteção das pessoas e sensibilização das mesmas", salienta o comandante distrital de Proteção e Socorro do distrito de Bragança. Neste momento o maior risco no distrito "é sempre a salvaguarda das pessoas e dos seus bens essenciais".

A região que nos últimos anos tem sido poupada a grandes fogos, mas as áreas de risco tendem a aumentar com "o grande abandono de áreas muito extensas e de grande continuidade, que podem potenciar incêndios de grandes dimensões. Cada vez mais áreas ardidas, muito potenciadas pelo abandono da agricultura e da própria desertificação que o nosso distrito, infelizmente, sofre", afirmou João Noel Afonso.

Outro tema em debate foi o Plano de Gestão Integrada de Fogos Rurais, em consulta pública até 5 de feveiro, e que vai vigorar nos próximos 10 anos:"O foco deste plano é permitir mitigar os grandes incêndios. A visão do plano é para apoiar na resolução dos eventos extremos (...). Não queremos que 2017 se volte a repetir. Para que isso aconteça temos que mudar a paisagem, pensar numa escala mais larga, que permita criar barreiras efetivas à proporção desses grandes incêndios. E temos que trabalhar a população, os agentes e a sua qualificação", explicou Paulo Mateus, da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF).

Sobre este plano, Xavier Viegas frisa que estes 10 anos não serão suficientes para mudar a sociedade e a floresta:"São processos lentos. Já se começou antes e já se notam algumas mudanças. São tarefas para uma geração. Algumas vão levar, se calhar, várias gerações", acredita.

Na noite desta quinta-feira, no teatro municipal de Bragança, o seminário continua com uma tertúlia "Papel da Comunicação Social na problemática dos Incêndios Rurais", com a participação também do Correio da Manhã.
O seminário continua esta sexta-feira, em Valpaços.

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