Pescadores apontam ainda escassez de areia, concessões de bares e restaurantes, escolas de surf e outros eventos a que são alheios.
Antes, senhores da praia, os pescadores da Caparica, Almada, têm cada vez menos espaço para trabalhar, entre escassez de areia, concessões de bares e restaurantes, escolas de surf e outros eventos a que são alheios.
"Antes tínhamos uma praia mais livre para fazermos a nossa atividade, agora temos muita regra e a regra também veio prejudicar a gente", contou à Lusa António Martins, conhecido por Calita.
Pescador desde os 13,14 anos, mestre de duas embarcações emblemáticas do areal da Costa da Caparica, o "O Rei dos Mares" e "A Rainha dos Mares", Calita assistiu à evolução do uso da praia e às restrições impostas aos pescadores, ao longo dos anos.
"Há muito evento, muito evento. Mas têm de se lembrar dos que cá estão", advertiu.
"Meteram muita regra aqui, é concessões, antes não havia, é escolas de surf, é tudo. Podem abrir tudo, mas depois esquecem-se que tem de haver uma área para os pescadores. Se não houver água e areia para a gente trabalhar, temos de parar", argumentou.
Calita disse que os pescadores já fizeram uma prova, contabilizando as áreas destinadas aos espaços concessionados para restaurantes, esplanadas, atividades de surf, banhistas e faixas de segurança. "Se vierem todos ao mesmo tempo para a praia, não há praia para eles todos, quanto mais para a gente trabalhar. Trabalhamos onde", questionou.
"A gente já cá estava, tínhamos de estar incluídos em primeiro lugar, como em algumas praias aí para o norte, tipo Mira, em que o pescador tem 75% das praias para pescar", sublinhou. "A gente não tem um por cento para pescar legalmente. Temos de parar, têm desistido muitos pescadores, porque depois é multas, não se ganha, porque não deixam trabalhar", desabafou.
As atividades na praia intensificam-se, à medida que o areal diminui de ano para ano, com a subida do nível do mar e a erosão, agravada por tempestades mais frequentes e intensas. No entanto, Calita encara com ceticismo as causas atribuídas a alterações climáticas.
"Temos de andar uns anos para trás e ver o que se passava ali entre o esporão grande e o Búgio. Havia ali uma língua de areia, que até se chamava a Coroa de Fora e isto não acontecia, estas faltas de areia na Costa, porque aqui a areia vai toda para dentro do rio. A força da água leva a areia da borda de água sempre para dentro do rio [Tejo]. Quando havia aquela língua ali, a areia estancava ali", recordou.
"Desde que aquela língua saiu dali, que a gente sabe até porque foi, foi para fazer obras da EXPO, praias de Oeiras, mexeram na natureza e o mar acabou por tirar dali. Aquilo parava a força da água, parando a força da água, a areia também já não vai", sustentou, destacando que a situação atual teve mão humana: "Mexe na natureza, dá buraco! Depois para repor é um caso sério".
A escassez de areia tem também impacto na arte xávega, uma técnica de pesca artesanal, que na Caparica está classificada como património cultural imaterial.
Lídio Galinho, outro dos líderes das companhas (grupos de pescadores) da Costa, observou que menos areal significa menos espaço para trabalhar. "Já temos as concessões, que é normal no verão, e a praia ficando mais curta, menos espaço temos para trabalhar (..) em algumas praias ficamos muito mais limitados pela falta de areia", indicou.
Mesmo noutros tipos de pesca, a redução do areal acaba por interferir com a necessidade de espaço para varar as embarcações. "Em termos de segurança, faz muita diferença", explicou.
Lídio pesca entre a Costa da Caparica e a Fonte da Telha, desde que começou a enrolar a corda no barco do pai. Aos 14 ficou encartado. As memórias que tem da praia são de um areal muito mais vasto.
"A falta de areia já se nota há muitos anos, estivemos muitos anos sem areia, há anos em que veio mais, outros menos. Este ano, como houve o comboio de tempestades, a areia de repente desapareceu", constatou o arrais [designação usada na Caparica para os mestres das embarcações].
Além da proliferação de atividades na praia, os pescadores têm este ano de se adaptar também aos trabalhos de reposição de um milhão de metros cúbicos de areia nas praias da Caparica, contornando os locais da empreitada e as zonas onde operam as dragas.
Os episódios de erosão na Costa estão documentados desde o século passado, em notícias de jornais e na memória coletiva.
"Lembro-me das histórias do meu avô materno, de já ter trabalhado há muitos anos com o Exército português, há cerca de 80 ou 90 anos, a fazer os primeiros pontões com argila e acácias, porque já nessa altura os bares tinham sido levados por uma tempestade e o areal tem encolhido daí para cá", constatou.
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