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Correio da Manhã

Sociedade
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Plásticas para jovens e idosos

Todos os anos, entram nos hospitais portugueses cerca de 1500 pessoas vítimas de queimaduras, que necessitam de cuidados reconstrutivos e estéticos. As crianças e os idosos representam 50% desses casos.

17 de Outubro de 2010 às 00:30
Novas técnicas ajudam a melhorar as intervenções cirúrgicas
Novas técnicas ajudam a melhorar as intervenções cirúrgicas FOTO: direitos reservados

"São situações graves e é um número pesado para as unidades do País. As queimaduras são um grave problema de saúde pública, não só pela sua gravidade imediata, mas principalmente pelas sequelas físicas e psicológicas que infligem aos doentes", explica Celso Cruzeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética.

Segundo o especialista, a grande maioria dos acidentes acontece em casa. "Muitas das situações que chegam aos hospitais estão relacionadas com acidentes domésticos envolvendo queimaduras, normalmente com líquidos ou fogo. Há falta de prevenção, e as situações que levam ao acidente são várias, porque existem muitas armadilhas: lareiras desprotegidas, fogões sem protecção, banheiras com água quente, líquidos ao lume", ilustra o cirurgião plástico.

Os acidentes de trabalho, envolvendo electricidade ou produtos químicos, e os acidentes de viação também apresentam um índice muito grande, contribuindo para a elevada taxa de queimados. Apesar da evolução tecnológica e profissional, nestes casos, as marcas ficam para a vida.

"São sequelas físicas e, muito embora a técnica e os avanços médicos as amenizem, ficam para sempre. São também situações de difícil recuperação psicológica, apesar do acompanhamento", explica.

A maioria das intervenções cirúrgicas é realizada à face e aos membros superiores. "Estas partes do corpo são a imagem fundamental de um indivíduo, aquilo que apresentamos à sociedade. Por isso é que causam transtornos psicológicos graves."

A reconstrução mamária e a cirurgia da obesidade são outras áreas de intervenção. "Hoje, já não se concebe uma mastectomia sem uma cirurgia de reconstrução mamária", explica Celso Cruzeiro.

"HÁ SITUAÇÕES QUE LEVAM À MORTE"

A importância da imagem tem vindo a acentuar-se na sociedade,e o conceito de beleza impõe-se como algo fundamental para se atingir a felicidade. Em Portugal , proliferam locais de intervenção nesta área e, na hora de fazer uma escolha, é necessário bom senso. Uma das preocupações fundamentais do presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética, Celso Cruzeiro, é clarificar a actividade. "Muitas pessoas não habilitadas actuam em Portugal com resultados penalizantes, e há situações que levam à morte. Poluem a sociedade indivíduos sem as certificações e conhecimentos exigidos. É preciso muito cuidado na escolha do profissional que vai executar a intervenção", alerta o cirurgião.

OPERAÇÃO FACIAL DUROU 30 HORAS

Em Janeiro, o espanhol Rafael fez um transplante facial parcial, realizado em Sevilha – tinha ficado desfigurado devido a uma doença genética que lhe provocou o crescimento de tumores benignos, deformando-lhe o rosto. Dois terços da sua face foram substituídos por tecidos, artérias e veias de um doador falecido. A cirurgia a que foi sujeito, em 25 e 26 de Janeiro, durou 30 horas e contou com a participação de 100 profissionais. Entre totais e parciais, apenas 11 pessoas receberam transplantes de face em todo o Mundo. Espanha, China, França e EUA estão entre os países onde já se realiza este procedimento.

O MEU CASO: DIANA AFONSO

"VIVIA PARA A QUEIMADURA"

Diana Afonso, hoje com 32 anos, queimou-se com azeite a ferver quando tinha apenas dois anos. O acidente doméstico deixou-lhe marcas no lado direito do pescoço, no peito, e acabou por lhe marcar a vida. "Achava que era a única criança queimada", explica. A infância e adolescência revelaram uma jovem com baixa auto-estima e dificuldades em encarar a sociedade. "Não andava com decotes, não ia a festas, não usava vestidos, na rua só olhava para o chão. Vivia para a queimadura." Até aos 14 anos, Diana foi sujeita a seis intervenções cirúrgicas, que a levaram a tomar uma decisão: "Queria fazer tudo para que as outras pessoas não tivessem as dores que eu tive e decidi ser enfermeira". No estágio profissional, o "destino" obrigou--a a reviver o passado. "Fui parar à Unidade de Queimados dos HUC. Foi difícil encarar, mas não desisti e foi ali que me recuperei e aceitei completamente", diz.

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