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Correio da Manhã

Sociedade
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Portuguesa vê 800 dentes por hora na Guiné-Bissau

Dentista do Porto faz voluntariado através da organização Mundo a Sorrir.
30 de Outubro de 2016 às 08:41
A dentista Inês Silva
A dentista Inês Silva FOTO: Luís Fonseca/Lusa
Inês Silva, 30 anos, dentista no Porto, inspecionou a boca de 44 crianças de uma instituição pré-escolar na capital da Guiné-Bissau numa hora.

Foi na manhã mais movimentada da semana: examinou "entre 800 a 900 dentes" que de outra forma nunca teriam uma consulta porque na Guiné-Bissau faltam especialistas e há famílias que preferem remédios caseiros.

Lavar os dentes com carvão em pó e sal, com um dedo a fazer de escova, é um desses hábitos.

A sensação abrasiva dos grãos faz crer numa limpeza a fundo, mas o desgaste é tanto que a dentição perde esmalte e as gengivas ficam feridas, alerta Inês Silva.

No entanto, as cáries "são o principal problema", queixa-se a dentista, voluntária da organização portuguesa sem fins lucrativos Mundo a Sorrir, coordenadora da intervenção na Guiné-Bissau.

A situação parece melhor que noutros países lusófonos, mas ainda há "muitas crianças com menos de seis anos com os dentes completamente destruídos, abcessos e muitas dores que os obrigam a faltar à escola", descreve.

Este cenário é agravado no interior da Guiné-Bissau, onde há regiões com dificuldade em ter escovas, pastas com flúor ou médicos dentistas.

Lavar os dentes pode muito bem ser uma das receitas para desenvolver o país e é por isso que, antes de cada rastreio, Inês Silva e a enfermeira Dália Santos juntam miúdos e graúdos em ações de sensibilização.

"Um copo com água, uma escova e pasta, para lavar os dentes é o que me basta", é o refrão da música que todos cantam várias vezes até a rima ficar na cabeça.

Nisto de fazer rastreio aos dentes "algumas crianças assustam-se, mas depois aceitam com naturalidade" a consulta e os hábitos de escovagem, conta Adriana Justino, coordenadora do Programa de Educação Pré-Escolar (PEPE).

Este programa de missionários da Convenção Batista Brasileira é um dos parceiros da Mundo a Sorrir na Guiné-Bissau, com muita fé na capacidade preventiva destas intervenções.

Seis crianças que passaram pelo rastreio e receberam uma dose de flúor na dentição (dada a cada seis meses) precisam de tratamento e as famílias vão ser avisadas -- no caso mais grave já se perdeu metade dos dentes devido a açúcar em excesso e falta de escovagens.

No futuro, a Mundo a Sorrir espera poder atendê-las gratuitamente numa clínica que vai começar a construir em Bissau.

Uma clínica móvel está entretanto pronta a funcionar fora da capital.

O material cabe numa mala de viagem e vai ser operado pelos voluntários que estão regularmente a passar pelo país.

Tudo somado resulta em "realização pessoal e profissional" refere Dália Santos, 36 anos, enfermeira no Hospital de Santo António, no Porto, que abdicou das férias para estar na Guiné-Bissau, suportando parte das despesas.

"Em Portugal, tenho tudo à mão para fazer enfermagem. Aqui é um desafio conseguir ajudar outra pessoa" e capacitar novos profissionais, refere.

Um trabalho que é um "bem maior" sempre "gratificante", conclui Inês Silva.

As cáries que se cuidem porque nos próximos meses vai haver sempre voluntários da Mundo a Sorrir na Guiné-Bissau, que, além da capital, vão visitar as regiões, incluindo as ilhas.
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