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Correio da Manhã

Sociedade
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Prótese na aorta salva vidas (COM VÍDEO)

O aneurisma da aorta torácica (presente na artéria que passa pelo tórax), no coração, é uma dilatação anormal e progressiva da aorta, que, quando rompe, origina a perda de grandes quantidades de sangue, que consequentemente, conduzem à morte. "O que se passa nestes casos é que a aorta está bastante doente, está dilatada. Devia medir cerca de 2/3 cm e mede 6/7 cm", explica Álvaro Santos, cirurgião cardíaco.

1 de Abril de 2012 às 01:00
O ‘CM’ assistiu à quinta substituição total da aorta torácica no H. S. Marta
O ‘CM’ assistiu à quinta substituição total da aorta torácica no H. S. Marta

Na maioria dos casos, os pacientes não apresentam sintomas, até que o aneurisma começa a dilatar. A substituição total da aorta torácica é a inovadora intervenção, que permite a reconstrução da aorta, que passa a funcionar através de próteses, proporcionando ao doente uma vida normal sem riscos. É uma abordagem feita em duas fases, separadas por alguns dias, e cujo objectivo é excluir o aneurisma da circulação sanguínea.

O Correio da Manhã esteve no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, a acompanhar a segunda parte do processo (endovascular). O doente, hipertenso, tinha um aneurisma da aorta há 6 anos, detectado num raio-X de rotina.

Na primeira fase, realizada dias antes, foi substituída a parte inicial da aorta doente por um tubo de poliéster e construiu-se uma canalização para que o sangue continuasse a circular para a cabeça. Na segunda parte, utilizou-se a técnica endovascular que permitiu, através de uma incisão na artéria femoral da virilha, levar a prótese ao coração, sem necessidade de invasão do tórax.

A intervenção tem um elevado risco cirúrgico e está associada a um considerável número de complicações, como AVC, paraplegia e insuficiência renal. Tratam-se de "doentes graves, cujos pós-operatórios são muito complicados", acrescenta Álvaro Santos. Contudo, a vantagem é que a técnica endovascular é menos invasiva que a cirurgia tradicional, o que faz com que o tempo de internamento do doente seja muito mais reduzido e não haja cicatrizes.

Esta nova abordagem traz aos doentes uma esperança de sobrevida, uma vez que, devido ao elevado risco cirúrgico, muitos estavam entregues à história natural da sua doença e ao controle da tensão arterial. "É um desafio na cirurgia que se está a conseguir ultrapassar e que queremos vir a melhorar", afirma Álvaro Santos. A intervenção é complexa e fruto do trabalho de equipa das especialidades de cirurgia cardíaca, cirurgia vascular, radiologia, anestesia e perfusão.


EXAMES MÉDICOS DEVEM SER FEITOS FREQUENTEMENTE

Aproximadamente 75% dos aneurismas da aorta são assintomáticos e descobertos ao acaso em exames de rotina e na investigação de outras doenças. Os exames devem ser frequentes: caso seja diagnosticado, o aneurisma pode ser tratado a tempo, evitando a ruptura.

PETIÇÃO PARA DIA NACIONAL DO ANEURISMA

A campanha ‘Aorta é vida’ tem como objectivo sensibilizar a população para os factores de risco dos aneurismas da aorta. A organização tem em curso uma petição para institucionalizar o dia 24 de Novembro como Dia Nacional do Aneurisma da Aorta Abdominal, de forma a alertar Portugal para a doença.

DISCURSO DIRECTO

"A DOENÇA NÃO TEM SINTOMAS", Álvaro Santos, Cirurgião Cardíaco, Hospital de Santa Marta 

Correio da Manhã – Qual a vantagem desta nova técnica?

Álvaro Santos – A abordagem, com duas partes, permite tratar de forma simples e eficaz.

– Quais os factores de risco da doença da aorta torácica?

– Afecta mais as pessoas com idades entre 50 e 70 anos. Doença rara, atinge mais os homens, hipertensos, obesos, fumadores ou com doenças pulmonares.

– Quais os sintomas?

– A doença é mais ou menos silenciosa, sem sintomas. As pessoas fazem a sua vida normal e num raio-X de rotina descobrem um aumento da silhueta cardíaca que precisa de mais investigação, um aneurisma. 


O MEU CASO: JOÃO AMARO

"DEIXOU DE IR À PESCA E À CAÇA"

Há cerca de cinco anos, João Amaro queixou-se de uma forte dor no peito, que mais tarde se complicou e traduziu-se num aneurisma da aorta. " Deixou de ir à pesca e à caça, actividades de que gostava muito, mas que podiam fazer o aneurisma rebentar", relata a filha de João, Cláudia Amaro. A doença foi progredindo até chegar a valores preocupantes, capazes de levar à ruptura fatal. "O aneurisma era de uma dimensão tal que o médico, a brincar, costumava dizer que toda a aorta era um aneurisma. O risco de o operarem era maior do que não operando", afirma.

O Hospital Santa Marta, em Lisboa, propôs-se a realizar a cirurgia através da inovadora intervenção (a primeira em Portugal), no início de 2011. Após a cirurgia, João Amaro esteve 14 dias em coma induzido, "um período muito complicado", recorda Cláudia. João Amaro faz actualmente a sua vida normal e sem limitações. Não tem qualquer cicatriz no peito, mas ficou com uma lesão na voz devido à pressão do aneurisma nas cordas vocais, o que lhe limita a conversação.

PERFIL

João Amaro, 61 anos, vive em Santo André (Santiago do Cacém) e é reformado. O stress da vida profissional como chefe de serviço provocava-lhe tensões elevadas. Mais tarde, diagnosticaram-lhe o aneurisma. 

PRÓTESE AORTA OPERAÇÃO CIRURGIA ANEURISMA
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